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A INSERÇÃO DA BOLÍVIA NO MERCADO MUNDIAL NOS SÉCULOS XIX E XX

Movimentos operários, a luta pela terra e os povos indígenas


Anna Pinotti Boratto


RESUMO


O artigo pretende compreender a relação de conformação da sociedade nacional boliviana com o espaço e tempo do capitalismo mundializado, a partir de um balanço historiográfico. Analisar os desafios e impedimentos do processo originário da burguesia nacional na Bolívia enquanto parte do espaço de acumulação de capital das potências imperialistas britânicas e estadunidenses. Ao assimilar o uso dos territórios coloniais enquanto base para consolidação das nações latino-americanas, a reflexão objetiva uma análise ampla da crise do antigo sistema colonial e concomitante novo ordenamento liberal e o enfoque, em ambos os processos, nas violências perpetradas contra as populações indígenas, assim como o protagonismo e a organização destas.


Palavras-chave: Antigo sistema colonial. Imperialismo. Revolução Boliviana de 1952. Povos indígenas andinos.



O FRUSTRADO NASCER DA BOLÍVIA


A análise do sentido econômico e político da ruptura do período colonial para o republicano no Alto Peru, conseguinte Bolívia, foi infinitamente objeto de estudo da historiografia nacional do país. José Luis Roca García em Ni con Lima, Ni con Buenos Aires (2011) identifica a posição de dupla submissão em que se manteve o território durante os anos anteriores a Guerra de Independência[1]. Segundo ele, a elite charquense com interesses protonacionais e grandes sentimentos autonomistas locais via-se submissa a Coroa Espanhola e aos Vice-reinos estabelecidos nas vizinhanças. Líderes independentistas - como Manuel Ascencio Padilla - representaram a única resistência local ao poder espanhol e controlam efetivamente parte de seu território.

Desmistificando a premissa de que o período foi um caos no qual o Estado se mostrava ausente, autores como Victor Peralta e Marta Irurozqui (2000) propõem o entendimento do caudilhismo como parte do processo histórico de conformação nacional. O fenômeno apresenta-se desse modo como potencializador do fenômeno estatal e resultado da conjugação entre os interesses privados e públicos. Sobre o processo de independência e o protagonismo destes líderes interessa o questionamento do enlace que acontece entre formas tradicionais de comportamento com uma modernidade liberal. A Independência não significou a ruptura dos mecanismos coloniais, mas sua reciclagem e engendramento que mantiveram ativo o processo de concentração interna de riquezas.

As tierras charquenses surgem como Estado-tampão num frustrado despertar. As elites políticas do Peru e Argentina estão como atores centrais desse estancamento, junto a preocupação manifestada por Simón Bolívar de um temeroso Estado peruano com muito poder. Longas foram as disputas e interligações até que se chegasse na conformação histórica assumida pela Bolívia. Luis Penaloza Cordeiro (1981), ao redigir sobre o estancamento da economia boliviana no pós-independência, aponta a consolidação de um sistema econômico feudal que continua a exploração brutal da mão de obra indígena e mescla a manutenção parcial do regime de terras comunais com a concentração da propriedade latifundiária. A importância econômica da exploração, com baixo processamento do estanho na economia nacional, gera um maquinismo que impede o salto para acumulação de capital industrial.

O estudo geopolítico dos anos que seguem a Guerra de Independência demonstra um segundo elemento relevante a partir das perdas territoriais resultantes dos vários conflitos bélicos envolvendo a recém-Bolívia. Com a diminuição das fronteiras do mapa, o país fica à mercê da relação com os países vizinhos para ter acesso a via marítima. Essa dependência, aliada ao baixo desenvolvimento industrial que envolvia as nuances da divisão internacional do trabalho e da centralização hegemônica por parte do capitalismo, gerou dificuldades concretas para a política interna e gestação do aparelho estatal durante as décadas restantes do século XIX.

A Bolívia é dotada de uma historicidade própria e uma inserção específica no capitalismo mundializado. A longa duração permite a apreensão de um processo que se configura do século XVI ao XX na ampliação dos domínios coloniais e expansão do capitalismo. O olhar atento à formação populacional e territorial, durante os períodos antes e depois da conquista e ocupação espanhola, são essenciais quando a origem do Estado nacional se dá no espaço colonial dominado pela Espanha. Assim, alia-se a precipitação do processo que levou ao fim do Império Espanhol, a falta de investimento para os territórios ultramar devido a financeirização da economia espanhola e o consequente endividamento.

Essa tradição colonialista remonta a criação de um espaço complementar ao processo de acumulação primitiva que estimulou e até tornou possível o desenvolvimento europeu. A continuidade consiste na readequação dos valores colonialistas (e racistas) para a elite liberal, igualmente entreguista. A geração dos excedentes na economia mineira é sistematicamente voltada para a compra de novas terras ou segue girando nas atividades especulativas e comerciais. Para os povos indígenas isso significou o investimento precário em assentamentos populacionais em áreas de difícil acesso para garantir a extração, circulação e exportação de minérios e o consequente desuso completo da infraestrutura inca numa consolidação socioeconômica voltada para fora.

A particularidade do antigo sistema colonial nas condições do altiplano engendra um modo de sociabilidade marcado pela imposição de uma visão ideológica e uma subalternização dos povos indígenas, relegados a mão de obra necessária para viabilizar a economia capitalista. Como pode ser expresso no caso das terras comunais, a manutenção de elementos tradicionais na modernidade do século XIX gera, no ventre da contradição acoplada ao atraso no desenvolvimento socioeconômico da sociedade boliviana, polos de aglutinação e preservação das populações. Esses polos são entendidos aqui como apoio sistêmico para a contratendência que, embora possa ter esbarrado em desdobramentos nos limites do reformismo, gerou as possibilidades para constituição e desenvolvimento do atual caráter plurinacional do governo.


La significativa presencia de las mujeres en la rebelión de Tupac Amaru, en puestos de mando y responsabilidad, tiene pues origen en la misma sociedad indígena donde las mujeres ocuparon una elevada posición en la familia y en el ayllu, y cuando las circunstancias demandaron, las viudas y hermanas de los jefes fueron “aceptadas como legítimos líderes”. Presencia que también guarda relación con el profundo vínculo ritual y mítico con la tierra, con sus costumbres ancestrales, sus diosas creadoras de la vida y de los alimentos, elemento fundamental de resistencia durante la conquista y la colonización. (GUARDIA, Sara. 2010.)


A discussão acerca da manutenção do regime de terras comunais e o conceito de ayllu é basilar para o trabalho e, através dessa citação também introduz-se a noção do protagonismo indígena e feminino no cerne das movimentações políticas do período colonial. Quando Juana Azurduy de Padilla nasceu, em 1780, a rebelião anticolonial iniciada por Tupac Amaru II pela independência da Espanha já se expandia pela futura Bolívia e o resto da Hispanoamérica. A trajetória de vida da guerrilheira cruza com a história do poeta Juan Wallparrimachi Maita, neto de um judeu português, filho de índia cusquenha e pai espanhol, que se tornou órfão de pai e mãe pouco depois de nascer. Foi criado por indígenas e depois recolhido pelos guerrilheiros Manuel e Juana de Padilla, de quem recebeu o primeiro nome, Juan. Com tom de tragédia, a situação traz compreensão do engendramento de meios e ferramentas políticas que cercaram o compromisso com as populações indígenas bolivianas e suas ideias, compartilhado pelos caudilhos do Alto Peru em seus sentimentos de oposição à Buenos Aires, Peru e certamente à coroa espanhola.

Minha mãe[2]

Que nuvem

será aquela nuvem

que escura se aproxima?

Será talvez o pranto de minha mãe

que vem convertido em chuva.

[...]


INTERLÚDIO: A LUTA PELA TERRA É UMA LUTA INDÍGENA.


O progressivo domínio hegemônico do imperialismo britânico durante o século XIX e estadunidense na primeira metade do século XX afeta drasticamente, de maneira direta ou indireta, os cenários políticos, econômicos e sociais do mundo, defrontando-se com o desenvolvimento de um novo estado de compreensão - e intervenção - política dos indígenas da Bolívia. A questão das terras era vista pelos povos indígenas a partir do seu uso social e político - visão fundamentada na tradição do ayllus andinos que contrapunha radicalmente a consolidação da tradição econômica latifundiária tanto no nível abstrato quanto prático, através de levantes e movimentações. Esse movimento é essencial para entender as origens da Revolução Boliviana de 1952, mas também para atualidade das produções historiográficas e formulação de táticas e estratégias que considerem a relevância da reivindicação política pela terra e sua associação às sociedades descendentes das famílias indígenas e do proletariado camponês ou urbano.

Para Mauro Marcos Farias da Conceição (2008), o peruano José Mariátegui é um dos grandes nomes entre as referências para o processo de organização das lutas indígenas no período de 1930 a 1952. Em seus ensaios, o autor introduz a noção dos danos irreversíveis encadeados pela falta de concretude histórica das movimentações que se mantém no plano filosófico ou cultural, trazendo assim a organização política e a discussão teórica enquanto armas contra as opressões, a partir da compreensão específica da realidade e da experiência local dessas populações.

Ao incluir a questão indígena nos Sete ensaios..., o autor buscou acentuar a importância de se considerar esse sujeito histórico como ativo no processo de superação das formas de dominação de classe em seu território, caracterizadas pelo bloco feudal-capitalista. É exatamente neste momento que o não operário entra em cena na teoria política revolucionária mariateguiana. Sem incorporar as ideologias “humanitárias” e “assistencialistas”, Mariátegui busca resolver o problema indígena por meio de uma luta revolucionária: primeiro contra o feudalismo, depois contra elementos capitalistas. Sem superar a opressão sobre os índios, não era possível visualizar qualquer projeto revolucionário para o Peru. (REIS, C. 2003. P.32)

Inflamada já desde fins do XIX, a fase imperialista do capitalismo consolida-se no momento da incorporação da economia boliviana ao mercado capitalista mundial com a mineração do estanho. A crise sistêmica da economia baseada em bens primários leva com que, poucos anos antes da queda da bolsa de 1929, o preço do estanho caísse subitamente. A fragilidade das estruturas econômicas de exportação bruta de bens primários alia-se à expansão do poder dos mineradores para setores de produção e negócios. Nesse quadro concentrador da produção, estreitam-se os laços de dependência do país com o mercado mundial. Em 1929, a Bolívia foi o país mais prejudicado pela queda do preço dos minérios (ano em que o orçamento destinado para dívida externa já beirava os 37%[3]):

A partir de 1927, os preços caíram constantemente: nesse ano a tonelada do estanho estava em US$ 917, em 1929 baixaria para US$ 794. Foi nesse momento delicado que sobreveio a crise de 1929 [...]. Os preços chegaram a cair para US$ 385 a tonelada [no final de 1930]. Só em 1933 a Bolívia conseguiu recuperar seus níveis de produção de meados da década de 1920.” (ANDRADE, 2007. P.24)

Frente ao crescente poderio econômico da extração do metal, o Estado tornou-se um mediador entre grandes capitais gerados pela mineração e o restante da burguesia boliviana, o que inclui a cessão de privilégios de exploração do petróleo, de linhas férreas e outros serviços aos barões do estanho. Esse mercado não estrutura uma ampla e forte burguesia nacional. Para Everaldo de Oliveira Andrade[4], o ônus da crise é redistribuído quando o frágil aparelho estatal sucumbe a instabilidade política e gera tensões no interior da burguesia.

A contradição da convivência do setor minerador moderno conectado diretamente aos centros econômicos mundiais em meados do século XX com um setor agrícola marcado por formas de trabalho servil e concentração de terras, complementada por formas de trabalho da tradição comunitária indígena de exploração do campo, leva a abertura de uma brecha para incorporação de uma geração proletarizada na luta pela emancipação.

A relação que a maioria da população mantinha com o Estado e a institucionalidade durante a década de 1930 ainda é muito incipiente. O debate gira em torno de segmentos sociais recém proletarizados das concentrações de mineiros, sem larga influência na vida política nacional. Para seguimento das elaborações, as seguintes escolhas foram feitas: o estudo sobre a compreensão das ações da burguesia boliviana no imediato pós-Guerra do Chaco, a constatação do Massacre de Catavi, e o estudo das Teses de Pulacayo, enquanto elementos exemplares das perspectivas socialistas concretas gestadas no período até 1952.



DA GUERRA DO CHACO A REVOLUÇÃO BOLIVIANA NACIONAL


A Guerra do Chaco (1932-1935) foi um marco desastroso para a história nacional quando a elite política, mantendo as tensões sobre a integridade territorial e social da Bolívia através da face do presidente Daniel Salamanca e do Partido Republicano (com um programa que pouco diferia dos liberais tradicionais), engendrou novas guerras fronteiriças. O conflito deixou um saldo de 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios mortos, tendo resultado na derrota dos bolivianos com a perda e anexação de parte de seu território pelos paraguaios.

A categoria de imperialismo serve para o desvelamento de interesses privatistas defendidos respectivamente pelas empresas britânica e estadunidense, Royal Dutch Oil e Standard Oil Company of New Jersey interessadas na descoberta de petróleo nos Andes. Esse acontecimento abre alas para o novo e último ciclo de dominação oligárquica da elite corrupta e antinacional, marcado pelo amadurecimento político e organizacional crescente da classe operária boliviana e um acirramento das contradições candentes de uma nação forjada pelos tentáculos do capitalismo e mantida pela elite umbiguista.

No pós-Guerra imediato surge a demanda de rearticulação da base política do Estado social e isso acontece atendo-se às medidas do recém empossado presidente liberal, José Luis Tejada Sorzano, de manipulação dos emergentes movimentos de oposição (setores operários e da pequena burguesia[5]). Seus sucessores sustentam a articulação de tais bases políticas e avançam na busca pelo amparo de setores do sindicalismo organizado, grupos socialistas e nacionalistas da pequena burguesia, sem romper com a burguesia boliviana. A partir de 1936, David Toro Ruilova e Germán Busch Becerra exercem a autoridade de Estado Maior do Exército e realizam uma gestão que aponta para uma maior intervenção estatal na economia nacional. O governo fica conhecido pela historiografia e ciência política como “socialismo militar”, sendo caracterizado pela introdução de conceitos sociais na constituição e pela criação do Banco Mineiro dirigido pelo Estado. Toro chegou a nacionalizar os bens da Standard Oil, por suspeita de colaboracionismo com o inimigo paraguaio. O governo Busch, tratou de estabelecer direitos trabalhistas na Bolívia e estatizou totalmente o Banco Central da Bolívia. Tal conformação levaria a indicação de um próximo governo restauracionista e autoritário, que logo após a morte de Busch já começa a esboçar-se na divisão interna no exército entre liberais nacionalistas e os conservadores. Os militares ligados a burguesia conservadora retomam o pleno controle estatal numa rearticulação que conta com um movimento de unidade de classe dos partidos de direita.

Nesse ponto, a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) é o terreno que sustenta a estrutura que corrobora para a análise de longa duração e ancoragem de uma intercontinentalidade necessária para situar o conceito de imperialismo. A empresa da guerra cobra do governo boliviano mais compromisso com os interesses dos Estados Unidos e, em certa medida, empaca a atuação do recém formado PIR, que não sendo formalmente vinculado a Terceira Internacional, adota atitude ambígua no período por alinhamento aos governos favoráveis aos Aliados.

Os anos que seguem 1942 são marcados pela difícil tarefa de organizar o movimento de massas numa iminente tendência à repressão e agravo das condições de vida dos trabalhadores. A criminalização dos sindicatos já era algo recorrente e, nesse ano, o único restante na legalidade - Ofícios Varios de Catavi - encaminha a sede da empresa uma lista de reivindicações. Menos de três meses, entre discussões de gabinete quanto ao pedido de declaração imediata do estado de sítio pela direção da empresa e os atos de resistência dos sindicalistas mineiros, o massacre é ordenado. Do ocorrido em Catavi são extraídas reivindicações que viriam a massificar a luta: inicialmente pela campanha nacional em torno de todo estanho que fora subsidiado aos EUA, e progressivamente com uma vasta relação de pautas. O ato em si foi protagonizado pelas forças repressivas do Estado controladas pelos barões do estanho.

O ritmo intenso de trabalho nas minas durante o período da Segunda Guerra Mundial, como já mencionamos, elevou a níveis insuportáveis a exploração dos trabalhadores mineiros e a deterioração de suas condições de vida. Em 1945 a produção boliviana de estanho chegou a cobrir 42,87% da produção mundial. Entretanto, os preços subsidiados provocaram perdas de divisas estimadas em US$ 500 milhões (Virreira, 1979, p.141-5). As empresas tentaram repassar essas perdas para os empregados, procurando cortar despesas com vistas a reduzir os custos de produção. Em 1943 menos de 3% dos empregados da Patiño Mines recebiam mais de um dólar por dia. (ANDRADE, 2007. P. 41-42)

O tom dos acontecimentos da década de 1940 foi ditado pela disputa da pequena vanguarda representante dos interesses operários e sociais com os setores da burguesia nacional pela busca por uma estratégia e resolução histórica. O POR sendo o partido com maior terreno para alianças táticas revolucionárias mais férteis e o MNR[6] enquanto jogador do plano parlamentar e legalista, encabeçando o ataque ao projeto nacional em voga. Quando o governo de Villarroel/MNR (1943-1946) propõe um modelo corporativista de sindicato, os anseios de um sindicalismo político e radical já circulavam: em pouco a Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB) emanciparia-se do controle estatal.

Nesse processo, a ação política dos trotskistas Guillermo Lora (POR) e Juan Lechin (FSTMB) foi essencial para afastar o conjunto dos trabalhadores das influências governamentais do MNR e por elevar os sindicatos a um lugar mais independente. Sem adentrar em discussões de cunho processual da análise, parece ser discutível a massificação desses resultados para fora da esfera dos trabalhadores mineiros. Daí partem alguns fundamentos da crítica à vanguarda do POR quanto ao sectarismo, que favorece a apropriação do MNR das reivindicações democráticas e nacionalistas durante o período que seguiu - caracterizado por ditaduras policiais militares com ou sem faces de demagogia.

As mudanças ocorridas no interior da Bolívia se davam em grande parte nos setores urbanos da sociedade. A década de 1940 foi então o momento em que ocorreram trocas de experiências de lutas sociais do campo e da cidade. Na medida que as estruturas de organização dos sindicatos camponeses usam o modelo urbano, inicia-se uma mesclagem dos acúmulos da comunidade indígena andina.

Desde a independência boliviana em 1825 até 1950, o número de comunidades indígenas decresceu de aproximadamente 11 mil para 3.799, enquanto o número de famílias sem nenhum tipo de propriedade, individual ou coletiva, já era muito superior ao de camponeses comunitários. Apenas 615 propriedades detinham nesse ano cerca de 50% das áreas de cultivo, enquanto 51.198 pequenas propriedades (60% do total) ficavam com apenas 0,22% das áreas de cultivo. (ANDRADE, 2007. P.40)

A tradição dos ayllus está dentre as noções que identificam a adequação das teorias revolucionárias de emancipação da classe operária à realidade concreta das populações descendentes dos quechuas e aymaras. A identificação de elementos norteadores das pautas em torno do uso social e político das terras na Bolívia é traço da autodeterminação e organização destes povos.

O I Congresso Indígena Nacional realizado em maio de 1945 na cidade de La Paz, um ano antes da divulgação das Teses de Pulacayo[7], demonstra a imparidade quanto ao compromisso dos nacionais-revolucionários do MNR com as teses obreiras e com as formulações do movimento indígena - mesmo que em ambos os casos se considere o antagonismo dos interesses de classe representados pela incipiente burguesia nacional liberal. O congresso foi descaradamente uma tentativa do governo Villarroel de instrumentalização política desse setor social. O espaço foi paternalista e fortemente cerceado pelas forças governamentais, o que impedia o avanço orgânico dos rumos da movimentação emancipatória. Não se discute com complexidade o tema da concentração de terras e conceitos como o de imperialismo. Ainda assim, foram elencadas conclusões que, mesmo essencialmente pouco efetivas, não foram sequer levadas em conta no desenvolvimento da Revolução.

Já nas Teses de Pulacayo, os fundamentos pensados em relação com a prática daquele setor em movimentos de base específicos podem ser bem entendidos em termos de estratégia e tática revolucionária. O documento expressa o caráter anti-imperialista e antifascista da luta e as análises conjunturais quanto a orientação burguesa de unidade nacional e das formulações acerca da consolidação de uma frente única proletária. Mensuram-se pactos e compromissos com a ação direta entre as massas alternada com a luta parlamentar. Apontam-se também caminhos para a organização de sindicatos campesinos para que trabalhem de forma conjunta com as populações indígenas.

Esse apontamento contido nas teses influi para a visão de uma aproximação inaugural do sindicalismo com as pautas concretas alinhadas com o movimento das lideranças indígenas. Nesse período de conformação, o sindicalismo boliviano teve dificuldades para consolidar e se envolver entre as camadas mais despolitizadas ou reformistas da classe trabalhadora, embora fossem majoritários entre os mineiros.



CONSIDERAÇÕES FINAIS


O olhar desde a Independência, passando pela Guerra do Chaco e as ebulições que levaram ao período revolucionário de 1952, facilita o entendimento de que ambas as rupturas surgem mais como continuidades de um mesmo padrão da economia mineiro-extrativa. A indústria nacional, com baixo índice de diversificação econômica e financeira, gerou após a Revolução Nacional uma dinamização do capitalismo agrário sui generis através da reforma agrária de 1953.

Considerando a Revolução de 1952 como fase final da crise da oligarquia mineira, esse mesmo processo resulta numa variante de um tipo de revolução burguesa num contexto social, econômico e político atrasado e mega dependente. É o que o autor Décio Saes (2005) caracteriza como passagem de uma economia mineira-exploradora monopolista privada para uma economia mineira-exploradora monopolista de Estado, que do mesmo modo não dá cabo das demandas do operariado e das massas indígenas. Esta estrutura econômica perdura os cenários políticos posteriores ao processo revolucionário nacional, como base da política de integração e controle das massas de trabalhadores.

[...] pode-se dizer que o populismo marcou uma fase de transição capitalista periférica na Bolívia que se caracteriza pela crise crônica de hegemonia no interior do bloco no poder e pela necessidade do Estado mobilizar as massas trabalhadoras com o fim de diminuir a instabilidade política que decorre dessa crise. Nesses dois últimos aspectos, estariam as limitações mais importantes da democracia política dinamizada no regime do MNR, cuja maior fonte de instabilidade e contradição do Estado de 1952 estaria a ascensão política real dos trabalhadores. (DURÁN GIL, 2008, p.160.)

É difícil analisar o tema do papel político exercido pelas classes trabalhadoras urbanas e camponesas, lideradas pelo proletariado mineiro, mas constata-se o papel secundário das grandes massas indígenas no processo revolucionário e uma participação pouco significativa na reforma agrária de 1953.

No hubo inversión ni apoyo técnico por parte del Estado para los campesinos beneficiarios y más bien se produjo un estancamiento y distorsión del proceso agrario. Los rasgos más importantes de este estancamiento se expresan en una estructura de tenencia de la tierra polarizada entre latifundios y minifundios, en la atrofia y corrupción institucional, en la degradación de la tierra y en un mercado ilegal de tierras. Todos estos aspectos fueron un impedimento para un verdadero desarrollo agrario. (BAMBA, 2003, p.193)

Identificam-se também tendências de manipulação da organização desse setor pelo partido do governo e seu aparelho. O caso da emergência de camponeses armados para a defesa da Reforma Agrária leais ao MNR traz a perspectiva de um clientelismo ou patronato político. O fenômeno é analisado pelo autor Cole Brasier em The United States and the revolution, no contexto da influência exercida pelos Estados Unidos, logo após a revolução de 1952, para “engendrar na Bolívia um clima favorável para o capital estrangeiro” como meio eficaz para “desenvolvimento econômico e como impedimento à expansão das empresas públicas”. (BLASIER 1971, p.90, In DURÁN GIL, 2008, p.168). Para ele, o estabelecimento dessas relações é por vezes tratado como um fenômeno negativo, de caráter corrupto e pré-capitalista ou pré-moderno. Na análise concreta da realidade boliviana, tal relação se mostra incisiva e perdura até a segunda metade do século XX como uma tipicidade da expressão do capitalismo na periferia do sistema. Esse acontecimento também foi condensado num dos contos mais importantes da literatura boliviana, El Indio Paulino[8]. No conto, os indígenas são acompanhados para desfilar em defesa da reforma agrária em La Paz. Paulino, por exemplo, lutava havia tempos por um pedaço de papel que lhe garantisse a posse da terra onde trabalhou por toda a vida. Entretanto, o desenrolar da narrativa demonstra principalmente a distância que separa as populações indígenas bolivianas das classes políticas nos centros urbanos. O protagonismo indígena, visto de modo aparente na historiografia boliviana através também das figuras heroicizadas como Tupac, Juana e María, esconde uma gama de nuances das rupturas e continuidades dessas histórias que envolvem a luta dos povos indígenas pela sua emancipação.


A saltos por la pampa desolada, en medio una nube de polvo, sobre un camino casi imaginario, avanzaba el camión hacia la ciudad [...] apartado entre otros indios, sin hablar con nadie y haciendo esfuerzos por mantener el equilibrio, venía Paulino. […].[9]



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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[1] A Guerra de Independência da Bolívia (1809-1825) foi a primeira no contexto das independências hispano-americanas. Nesse conflito enfrentaram-se os patriotas bolivianos contra os realistas espanhóis. Sucedem-se mais de quinze anos em que os grupos de rebeldes patriotas combatem as autoridades políticas e militares que representavam a lealdade a Espanha em todo o território do Alto Peru. A decapitação dos verdadeiros revolucionários já desde 1821 é uma tese que explicaria a infiltração, dentre doutores, intelectuais e soldados da Independência, dos realistas. Essas visões são importantes para que se considere o contexto de lutas pela libertação dos povos frente aos novos processos latinoamericanos. [2] Traduzido a partir de uma versão em espanhol do original, quechua. Trad. VASQUES, Jeff. 2017. Poesias de Luta da América Latina. [3] ANDRADE, Everaldo de Oliveira. (2007) A Revolução Boliviana. São Paulo: Editora UNESP. [4] IBIDEM [5] O surgimento de movimentos de independência do proletariado é orientado pelo marco da fundação do Partido Obrero Revolucionário (POR) em 1935, que desenvolve-se em uma das seções mais ativas da Quarta Internacional. O cenário descrito de dissensões de setores da pequena burguesia da hegemonia burguesa é o que impulsiona a fundação do Partido Izquierda Revolucionária (PIR) em 1940. O Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), desde o seu início em 1942, surge como partido da ordem liberal burguesa. [6] Ver Duran Gil, 2014. Impossível não mencionar e fazer jus à imensidão de estudos sobre as clivagens táticas e ideológicas deste segundo a partir de 1952. [7] Documento manifesto da linha defendida pelo POR em ampla inserção dentre o setor operariado mineiro escrito por Guillermo Lora, aprovado com base no projeto apresentado pela delegação de Llallagua e publicado em novembro de 1946. [8] Conto: “El Indio Paulino” (1969). Autor: Ricardo Ocampo (1928- ), Bolívia [9] IBIDEM

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