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A LUTA DA PROLETÁRIA: CLASSE E GÊNERO EM ROSA LUXEMBURGO

Roberto Medeiros da Costa Junior[1]


INTRODUÇÃO

A contribuição teórica de Rosa Luxemburgo à teoria econômica do marxismo é largamente comentada por diversos acadêmicos e debatida em diversos ciclos de estudos. Porém, para isso, o seu legado histórico como uma protagonista mulher revolucionária e socialista torna-se negligenciado. O que se pretende investigar quanto à vida de Rosa Luxemburgo no presente artigo é sua contribuição com relação aos estudos de gênero e igualdade entre homens e mulheres dentro do sistema capitalista.

Para isso, dois escritos são considerados cruciais para compreendermos sua ênfase em defender o direito de luta e igualdade das mulheres perante a sociedade, O direito do voto das mulheres e luta de classes de 1912 e A Proletária de 1914. Nestes, percebe-se o entendimento de Rosa sobre a participação das mulheres na vida política e sua argumentação para a extensão do sufrágio universal para as mulheres trabalhadoras.


VIDA DE ROSA LUXEMBURGO

Para compreendermos melhor suas ideias e ações, precisamos traçar um breve panorama de sua vida e contextualizar sua história e trajetória, que lançam luz sobre a antessala do período nazista. Em vias da Comuna de Paris¹[2], Rosa Luxemburgo nasceu, com origem em uma família judia, em 5 de março de 1871, na cidadezinha de Zamosc, na Polônia, que na época era ocupada pelo Império Russo. Desde pequena, Rosa tem problema com o crescimento em uma das pernas e passa a viver com deficiência para andar. Como sua família tinha origem judia, seu pai que exercia a profissão de comerciante tinha dificuldades para conseguir trabalho com as leis antissemitas que existiam no Império Russo.

Rosa viveu sua infância e parte de sua juventude na Polônia, dividida entre os impérios Russo, Alemão e o da Áustria-Hungria. Ao entrar no liceu russo para moças, a jovem se aproximou de um grupo de estudantes secundaristas e setores do movimento operário polonês, ilegal na época, onde lutava contra a repressão exercida pelo Império Russo, que teve como uma de suas medidas proibir a língua polonesa. Aos 22 anos, funda o Partido da Social Democracia do Reino da Polônia (SDPK) junto com outros socialistas poloneses e Leo Jogiches, um jovem revolucionário da Lituânia que se tornara seu companheiro de militância.

Com essa aproximação e a entrada de Rosa Luxemburgo para o movimento socialista e o antissemitismo que as autoridades czaristas promoviam, ela passa a ser perseguida por sua incitação as greves e seu posicionamento político e foge de Varsóvia para morar e estudar em Zurique, na Suíça, onde era permitido que mulheres pudessem se matricular na Universidade. Após sua entrada na Universidade de Zurique, frequentou-a de 1889 até 1897, onde se aprofundou nas teorias de Karl Marx e defendeu o seu doutorado aos 26 anos em economia política sobre “O desenvolvimento industrial da Polônia”, que fora publicado no ano seguinte por uma editora de Leipzig.

Em 1899, Rosa muda-se para Berlim com a intenção de participar do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), onde, logo após sua entrada, é conhecida com o escrito Reforma ou Revolução? de 1899, rebatendo as teses de Eduard Bernstein, amigo de Engels, consideradas por ela, revisionistas da teoria marxista. Em 1904 é presa durante dois meses acusada de ter ofendido o imperador Guilherme II em um de seus escritos. Dois anos depois, viaja para Varsóvia no intento de participar da revolução russa de 1906, uma experiência que foi importante para desenvolver suas teorias, principalmente com relação a autonomia das massas populares nas transformações históricas. Presa por quatro meses em 1906, escreve Greve de Massas, Partido e Sindicatos, onde defende a greve de massas como tática revolucionária contra a inércia da social democracia.

Entre 1907 e 1914, Rosa Luxemburgo torna-se professora do SPD. Dessa experiência e estudo uma de suas principais obras foi concebida, A acumulação do capital de 1913. Por discordar da votação favorável aos créditos de guerra pela social-democracia alemã em 1914, ela e outros membros saem do partido e fundam outro, a Liga Spartakus. Presa durante 1915 a 1916, ela escreve A crise da [3]social-democracia, publicado em 1916. Após sua liberdade, é convocada para participar do protesto de Primeiro de Maio de 1916, onde é novamente encarcerada. Libertada no fim de 1918, no começo da Revolução Alemã, participa da fundação do Partido Comunista Alemão e das insurreições de Janeiro de 1919, onde foi assassinada por tropas do governo. Os assassinos foram encontrados e julgados com penas leves e uma vida relativamente tranquila durante o nazismo na Alemanha.


Direito de voto das mulheres e luta de classes

Nesse artigo escrito em 1912, Rosa Luxemburgo faz a defesa do sufrágio universal como direito das mulheres, vinculando-o ao balanço do desenvolvimento do movimento proletário das mulheres na política nos últimos quinze anos na Alemanha, mostrando que com isso, as reivindicações pelo direito do voto feminino encontram-se na ordem do dia da vida política da social-democracia.

Esse desenvolvimento da classe das mulheres proletárias que é apresentado por ela, está estritamente ligado ao fato de que existiam mais de 150 mil operárias que se encontravam sindicalmente organizadas e que o periódico feminino da social-democracia contava com mais de 100 mil assinantes. Apesar disso, Rosa analisava que:

Alguns poderiam, justamente a partir desses fatos, subestimar o significado da luta pelo direito de voto das mulheres. [...] Mas quem pensa assim está enganado. A espetacular sacudida política e sindical das massas do proletariado feminino nos últimos quinze anos apenas se tornou possível porque as mulheres do povo trabalhador, apesar de serem privadas de direitos, tomam parte ativa na vida política e nas lutas parlamentares de sua classe. (LUXEMBURGO, 1912 apud LOUREIRO, 2011, p.444)

Ao se referir aos interesses do estado capitalista, Rosa compreende que ele não pode impedir as mulheres de assumir as obrigações e dificuldades da vida política. Para ela, as mulheres devem se organizar e pressionar em conjunto com toda a classe proletária para que esse direito político seja concedido, resultando em um progresso na luta de classes, assim como foi quando o Estado cedeu ao avanço das proletárias e as liberou para estarem presentes nas reuniões políticas[4].

Graças ao aproveitamento do direito de associação e de reunião, as proletárias conquistaram para si a parte mais ativa na vida parlamentar, nas lutas eleitorais. E, agora, é apenas uma consequência imperiosa, é o resultado lógico do movimento que hoje milhões de mulheres proletárias gritem de maneira autoconsciente e provocadora: Que venha o direito de voto das mulheres! (LUXEMBURGO, 1912 apud LOUREIRO, 2011, p.445)

O direito de voto das mulheres era o objetivo a ser consolidado, mas para além disso, o movimento de massas que deveria fazer pressão ao governo, seria uma questão de senso de classe comum do proletariado, tanto dos homens quanto das mulheres, para assim conquistado, fortalecer a social-democracia revolucionária. Para Luxemburgo, a monarquia e a falta dos direitos da mulher teriam sido desenraizadas pelo desenvolvimento capitalista moderno, que continuaram a existir na sociedade moderna porque segundo ela:

Não, eles continuam aí porque ambos - tanto a monarquia quanto a falta de direitos da mulher - tornaram-se ferramentas poderosas dos interesses inimigos do povo. Atrás do trono e do altar, bem como atrás da escravização política do gênero feminino, escondem-se hoje os piores e mais brutais representantes da exploração e da servidão do proletariado. A monarquia e a falta de direitos da mulher tornaram as ferramentas mais importantes da dominação capitalista. (LUXEMBURGO, 1912 apud LOUREIRO, 2011, p.446)

Por sua vez, ao analisar a questão socioeconômica do modo de reprodução capitalista, Rosa constatou que as mulheres que fazem parte da classe exploradora desempenham a função social de instrumentos da reprodução natural para as classes dominantes, enquanto as mulheres do proletariado são economicamente autônomas e produtivamente ativas para a sociedade na mesma medida que os homens. Com isso, mediante como se dá a reprodução do sistema capitalista, desse ponto de vista não haveria porque - se homens e mulheres são produtivos da mesma forma sob o capitalismo - as mulheres não terem o direito ao voto.

Por fim, Rosa Luxemburgo analisa a luta de classes como algo que influenciou para o aumento do círculo de influência e participação das mulheres na política, algo que para ela faria parte da emancipação feminina e depois da emancipação geral do proletariado, como ela mesma escreve:

A presente luta de massas pela igualdade política da mulher é apenas uma expressão e uma parte da luta geral do proletariado, e justamente nisso é que se encontra sua força e o seu futuro. O direito de voto universal, igual e direto das mulheres iria- graças ao proletariado feminino - fortalecer e avançar enormemente a luta de classes proletária. Por isso, a sociedade burguesa abomina e teme o direito de voto das mulheres e, por isso, queremos e iremos conquistá-lo. (LUXEMBURGO, 1912 apud LOUREIRO, 2011, p.450)


A PROLETÁRIA

Rosa Luxemburgo escreveu um curto artigo, chamado A proletária em 1914, na semana da Social-Democracia. O texto se refere à questão da luta das mulheres proletárias na social democracia por seus direitos políticos. Rosa no início comenta que,

O dia da proletária inaugura a semana da Social-Democracia. O partido dos deserdados coloca a sua coluna feminina no front ao partir para a dura luta pela jornada de oito horas, a fim de espalhar a semente do socialismo sobre novas terras. E a igualdade de direitos políticos das mulheres é o primeiro mote que ela levanta, ao se prestar a recrutar novas seguidoras em prol das reivindicações de toda a classe trabalhadora. (LUXEMBURGO, 1914 apud LOUREIRO, 2011, p.493)

Ao se aprofundar sobre o trabalho da proletária, Rosa expõe que a mulher do povo teve em toda a história sempre que trabalhar pesado, e que somente na proletária moderna ela se torna um ser humano, pois para ela, a luta é que produz o ser humano, com sua participação no trabalho cultural e na história da humanidade. Dessa análise, Luxemburgo conclui que, “para a mulher burguesa proprietária, sua casa é o mundo. Para a proletária, todo o mundo é a sua casa, o mundo com o seu sofrimento e sua alegria, com sua atrocidade fria e seu tamanho.” (LUXEMBURGO, 1914 apud LOUREIRO, 2011, p. 494)

Em sua análise da atuação das mulheres diante do sistema capitalista, a escritora trabalha com a ideia de que como a proletária se sacrifica igualmente para o capital e assim exerce igual função econômica que o proletário masculino na sociedade, deveria ter suas reivindicações políticas atendidas. E com isso, encerra incitando as trabalhadoras a lutar através da revolução pelo o que é seu de direito,

Proletária, a mais pobre dos pobres, a mais injustiçada dos injustiçados, vá à luta pela libertação do gênero das mulheres e do gênero humano do horror da dominação do capital. A social-democracia concedeu a você um lugar de honra. Corra para o front, para a trincheira! (LUXEMBURGO, 1914 apud LOUREIRO, 2011, p.496)


CONCLUSÃO

Se organizar à volta deste tema proposto aqui e discuti-lo é temática central para o século XXI. O pensamento de Rosa e seu desenvolvimento se materializaram em ação concreta, construindo diversas organizações revolucionárias, incitando lutas políticas e a participação das mulheres em processos revolucionários.

Por fim, acredito que pudemos a partir das questões centrais do texto compreender brevemente como o legado de Rosa Luxemburgo é relevante para que as mulheres se inspirem e lutem pelos seus direitos, pela liberdade e emancipação das opressões.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ARENDT, Hannah. Homens em Tempos Sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

BADIA, Gilbert. Clara Zetkin:vida e obra. 1ª.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2003.

FRÖLICH, Paul. Rosa Luxemburgo: Pensamento e ação. 1ª.ed. São Paulo: Boitempo; Iskra, 2019.

LOUREIRO, Isabel. (org.). Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos, Volume I. 3ª.ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011.

LOUREIRO, Isabel. (org.). Rosa Luxemburgo: Textos escolhidos, Volume II. 3ª.ed. São Paulo: Editora Unesp, 2018.

LUKÁCS, Georg. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. 3ª.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? 3ª.ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

SCHÜTRUMPF, Jörn. Rosa Luxemburgo ou o preço da liberdade. 2ª.ed. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2015.


________________________________________________________________________ [1] Graduando em História pela UNIRIO [2] Necessário ressaltar que próximo ao seu nascimento, em 18 de março de 1871, foi criada a Comuna de Paris, um marco que influenciou as futuras gerações. A experiência de um autogoverno de camadas populares se estendeu por 72 dias e foi reprimida duramente. [3] Nome em homenagem ao gladiador de origem trácia que liderou uma revolta de massas na Roma antiga. [4] É necessário destacar que em 1902, foi aprovado um decreto pelo ministro prussiano do Interior que autorizava a presença de mulheres em reuniões políticas em uma parte especial do recinto combinado, chamado de ‘’segmento das mulheres’’.

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