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A PERCEPÇÃO DA IDENTIDADE RURAL PELA ELITE BRASILEIRA

Roberto Evaldo Wiggers¹


RESUMO


Este se propõe a discutir sobre o que formou e o que é de fato a identidade rural brasileira, bem como o impacto disso no desenvolvimento do campo. Por meio de um debate bibliográfico e da análise da questão racial presente na obra Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, apresentamos como as realidades camponesas foram descritas pela elite brasileira como algo ruim, não evoluído e como um entrave para o desenvolvimento - e para o branqueamento e europeização - do país. Com isso, vemos que há ainda muito a ser pesquisado sobre a formação da identidade brasileira e sobre os entraves para o desenvolvimento do campo de forma democrática.


Palavras-chave: Identidade. Rural. Brasil.



INTRODUÇÃO


O Brasil, enquanto país majoritariamente agrícola, nunca desenvolveu uma percepção identitária como tal. O cidadão rural - negro, pobre - foi deixado em segundo plano em relação ao brasileiro ideal - branco, proletário e europeizado. No início do Século XX, alguns intelectuais brasileiros como Renato Kehl, Adalzira Bittencourt e Monteiro Lobato legaram ao povo pobre e trabalhador o status de degenerado, mal educado, vagabundo, etc.

Esses estereótipos acabaram por reforçar não apenas uma dicotomia entre campo e cidade - onde a cidade subjuga o campo em aspectos econômicos, sociais e políticos. Isso faz com que não apenas um seja mais desenvolvido que o outro como também reforça questões sociais como o preconceito de classe e étnico-racial, que no caso brasileiro nos é herança do passado escravista.

Discorreremos sobre a formação agrícola do Brasil e sobre a formação da identidade brasileira, onde se encontram diversos conflitos. Neste texto analisaremos um deles: a imagem do brasileiro rural presente no personagem Jeca Tatu criado por Monteiro Lobato, a fim de discorrer sobre os estereótipos e preconceitos vigentes no imaginário brasileiro e seus impactos, bem como as suas transformações ao longo da primeira metade do século XX.


O TRIPÉ DE FORMAÇÃO BRASILEIRO


Uma análise econômica clássica sobre a formação do Brasil nos aponta que ele se formou sob o tripé: monocultura, latifúndio e escravidão - tripé este que nos é apresentado nas obras de Freyre (1966), Prado Júnior (1972) e Holanda (1979). Este tripé foi fundamental tanto para a manutenção e acúmulo de capital da burguesia nativa como para a consolidação do Brasil como país de capitalismo dependente.

Discorreremos aqui sobre esse tripé, começando pela escravidão. Como mostra Medeiros (1995), no começo do século XX, estratégias eugenistas e higienistas foram utilizadas pelo estado brasileiro como meio para embranquecer a população e assim legitimar, através do racismo científico, a exploração de uma classe trabalhadora extremamente heterogênea que começava a se proletarizar.

Ciro Cardoso (1979) mostra que todos os países que se desenvolveram sob o sistema escravista possuem aquilo a que ele se refere como “problema do negro”. Segundo o autor, após a abolição da escravidão nestes países, o negro e o mestiço continuaram sendo estigmatizados e marginalizados na sociedade. O cantor e rapper Criolo, em sua música “Povo Guerreiro”, expressa algo nesse sentido quando canta:


No pós liberdade / O negro foi marginalizado / Teve a alma aprisionada / Com as algemas da desigualdade / Hoje refugiado em favelas / Onde a vida tem suas mazelas / Combate a miséria, o preconceito e a adversidade / A igualdade e o respeito / Mais do que anseios / Também são necessidades. (CRIOLO, 2018)


Cardoso (1979) enfatiza ainda a dialética presente na questão racial, cuja complexidade não deve ser reduzida à esfera econômica pós-abolicionista, uma vez que a relação entre negros e brancos sofre impactos que superam a argumentação de uma escassez de mão de obra qualificada no pós-abolição:


os ex-escravos foram abandonados à própria sorte, e como o governo tratou de incentivar a imigração maciça de europeus, viram-se na impossibilidade de concorrer com a mão de obra estrangeira, muito mais qualificada [...] Ao mesmo tempo, a desorganização de seus valores sociais e culturais pela escravidão impediu que eles pudessem adaptar às novas condições [de falta de trabalho e marginalização] (CARDOSO, 1979, p. 106).


A respeito da monocultura e do latifúndio: estes foram os principais responsáveis pelo não desenvolvimento agrícola do país em detrimento da industrialização urbana e configuraram peça chave na estagnação científica do país. Isso contribuiu para a consolidação do Brasil como país exportador de matéria prima e importador de tecnologia e mão de obra qualificada, ou seja, como um país de capitalismo dependente (FERNANDES, 2009).

Monocultura e latifúndio caminham de mãos dadas. Já que o objetivo principal do latifúndio é explorar a terra a partir da monocultura, logo, ambos são codependentes e possuem caráter predatório e de esgotamento. Foi nesse esgotamento da terra que se deram os ciclos de produção - com o da cana-de-açúcar e do café - em detrimento de desenvolvimento agrícola (CARDOSO, 1979, p 126). Foi apenas no começo do século XX que o governo brasileiro começou a pensar e a investir em políticas que buscassem diversificar a produção agrícola dentro dos latifúndios, melhorar as técnicas de manejo do solo e evitar a degradação causada pelo uso predatório da monocultura.

No entanto, essas políticas de modernização só passaram a ser aplicadas de fato a partir de 1960, com a Revolução Verde. O caráter revolucionário desta pode, todavia, ser criticado, uma vez que muito do que se prometia não foi propriamente alcançado. Ao invés de acabar com a fome e com a degradação do solo, apenas aumentou o poder do latifúndio, a concentração de renda, e modernizou a monocultura através de uma industrialização e tecnologização do campo (DUFUMIER, 2011).



JECA TATU, RACISMO CIENTÍFICO E A QUESTÃO DA IDENTIDADE


Durante grande parte da história brasileira, a agricultura não era vista como atividade nobre, ao contrário, se procurava superar a identidade agrária, visto que era uma atividade que não conferia status. Em certa medida, o Brasil teve vergonha de ser agrícola (KLUG, 2016). O auge dessa negação do rural foi a fundação da Sociedade Eugênica de São Paulo. Seus membros autointitulados “homens de sciencia”, discutiam questões raciais e pensavam soluções eugenistas/higienistas com o objetivo de combater o não-desenvolvimento do país e encontrar os culpados que impediam sua civilização.

Esses homens vieram a empunhar bandeiras médicas, jurídicas e até mesmo a usar a literatura para higienizar, castrar e educar o povo brasileiro. Como discorre Park (2009), nessa espécie de cruzada pelo progresso se buscava aprimorar um povo majoritariamente camponês, mulato e pobre - e aqui vale ressalta o “problema do negro” . Para os eugenistas, o povo brasileiro, repleto de vícios, parasitava na terra e não produzia nada de bom para o país .

Um dos expoentes desse pensamento científico eugenista foi o personagem Jeca Tatu, da obra literária de Monteiro Lobato. Lobato compara o Jeca - camponês, mulato e pobre - ao piolho, pois, para ele, ambos se espalham pela terra e se proliferam nas mais adversas situações, sem nunca conseguir pensar e sempre sugando as riquezas do meio onde estão inseridos.

Park (1999) destaca que o Jeca Tatu aparece em todas as seções da imprensa, assim como nos acontecimentos esportivos, nos comentários políticos, nos cartazes de teatro e nas campanhas sanitaristas espalhadas pelo país. Em um teatro, ao falar sobre a questão racial, o orador, claramente eugenista, começa assim o discurso:


Conheceis por ventura o Jeca Tatu do “Urupês” de Monteiro Lobato, o admirável escriptor paulista? [...] aquele typo de uma raça que “entre as formadoras de nossa nacionalidade” se perpetua a vegetar de cócoras, incapaz de evolução ou impenetrável ao progresso [...] (ESTADINHO, 24.03.1919 apud PARK, 1999, grifo meu)


Jeca Tatu impregnou o imaginário nacional. Isso se deu principalmente através do trabalho conjunto de Monteiro Lobato e de Cândido Fontoura - dono do Biotônico Fontoura, produto largamente consumido no país e cuja embalagem estampava tiras do famoso personagem.

O personagem Jeca Tatu foi criado para expressar a pobreza endêmica do país e apresentar soluções higienistas. Para Park (1999), isso acontecia com o intuito de separar o burguês ascendente do povo infecto que gradualmente passava a se proletarizar nas cidades. Prestes (1980) fala da necessidade de que haja no Brasil uma democracia que seja de fato para todas as pessoas e não apenas para as elites, como a “democracia” que vigora no país desde o pós-abolição.

Todavia, em 1947, o Jeca Tatu se transforma em Zé Brasil e passa a viver na cidade, adquirindo, portanto, instrução suficiente para conversar sobre assuntos complexos como política, por exemplo. Isto explicita e reafirma a crença de Lobato na higiene racial como meio de reorganizar a sociedade e de colocá-la num processo civilizador (PARK, 2009). Com isso, o autor compara Monteiro Lobato à Erasmo de Rotterdam ao compartilharem, mesmo com quatro séculos de diferença, concepções semelhantes do que consiste o “ser civilizado”.

Medeiros (1995) aponta que termos depreciativos como os encontrados no Jeca eram utilizados não apenas para mostrar o caminho evolutivo “civilizatório” proposto pela elite brasileira, que ansiava por um país branco e europeu, como também para manter o proletariado ascendente marginalizado e fora do jogo democrático.

Os modos de vida urbanos se tornam padrões de vida largamente propagandeados por meio de rádios, jornais, etc. O camponês era ligado ao atraso, à falta de educação e a uma espécie de não-civilização (NAVARRO, 2005, p. 51). Essas propagandas eram nada mais que uma tentativa de se educar um povo, criar homogeneidade, negando as suas mais diversas subjetividades a fim de criar/inventar uma identidade brasileira única. Nisso, Norbert Elias (1994) parece acertado quando diz que o embate civilizador não é entre civilização versus barbárie, mas sim entre civilização versus cultura.

Essa marginalização do campo em prol da cidade ocorreu, como argumenta Medeiros (1995), para que a elite pudesse consolidar os seus monopólios e aumentar o seu poder institucional. Marginalizado, o camponês não se reconheceria como cidadão e, portanto, não exerceria seu poder político, o que assegura o status quo (NAVARRO, 2005, p. 51). O fato do camponês ser reconhecido como cidadão é que faz com ele se sinta parte atuante e formadora da sociedade e da identidade brasileira:


[...] o estatuto de trabalhador é que dá identidade social e política ao homem brasileiro, fato magistralmente materializado pela criação da carteira de trabalho e pela definição da vadiagem como crime. (GOMES, 1988 apud MEDEIROS, 1995)


E esse é, talvez, um dos principais motivos por trás da larga propagação de estereótipos como o de Jeca Tatu no imaginário brasileiro/na sociedade brasileira. A depreciação e ridicularização deste personagem caricato estabelecia e reforçava uma concepção de camponês que parecia inapta à cidadania. Assim, o camponês não era visto como sujeito de direitos e, quando o era, continuava numa posição marginalizada. Em suma, essas ideias servem para manter a ordem social burguesa intacta.

Como aponta Medeiros (1995), foram os anarquistas e o Partido Comunista Brasileiro (PCB) que, após a década de 1930, atuando com caravanas pelo interior brasileiro, buscaram conscientizar os camponeses sobre a sua importância para o país e para o desenvolvimento pleno do campo de uma forma democrática. Esse trabalho de base teve como objetivo elevar a consciência das massas (PRESTES, 2012, p. 130-131) contra os males do latifúndio e dos monopólios.

O conceito de desenvolvimento é maleável e, portanto, pode ser utilizado por diversas pessoas em diversos sentidos. Navarro (2005, p. 51) aponta que um dos obstáculos para o desenvolvimento do país e de sua democratização plena está não naqueles que trabalham dia a dia em condições de vida e saúde totalmente pauperizadas a fim de manter a sua subsistência, mas naqueles que usam a terra como reserva de valor e arma de reprodução política. O autor conclui enfatizando que a Reforma Agrária - como a feita na Bélgica e nos Estados Unidos - mais do que um anseio popular, é uma necessidade.

Desenvolver o rural de forma plena, livrando-nos do latifúndio e da monocultura, é um dos passos para transformar a realidade do país, como apontam Navarro (2012), Medeiros (1995) e Prestes (1980). Esse desenvolvimento deve se dar com respeito às diferentes culturas e técnicas, trabalhando com elas e a partir delas por um objetivo comum. O desenvolvimento do campo culmina, também, na prosperidade da cidade.

Mendes e Ichikawa (2010, p. 170) realizaram entrevistas com produtores rurais e concluíram, a partir das respostas obtidas e de uma análise histórica, que o não-desenvolvimento do país vai para além de uma suposta ignorância e desinteresse daqueles que vivem no campo (como o Jeca de Lobato nos diz). O campo está em constante mudança e adaptação a fim de inovar e melhorar sua qualidade de vida.

Existe, entre os intelectuais, um extenso debate sobre o que é cultura, o que é civilização e como esses dois conceitos dialogam entre si. Mendes e Ichikawa (2010, p. 177) apontam um debate sobre isso presente nas obras de Hegel e Heidegger, onde eles definem a identidade como qualificação do sujeito. Essa identidade é o que nos torna diferentes, que nos dá a impressão de sermos nós mesmos e não produto de outros ou de algo externo a nós mesmos.

Com isso, podemos entender que