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“COISA MAIS LINDA” E “QUARTO DE DESPEJO”: A FICÇÃO E REALIDADE DAS MULHERES NA SOCIEDADE BRASILEIRA

DURANTE OS ANOS DOURADOS


Mariana de Brito Silva[1]

RESUMO O presente trabalho tem como proposta analisar as diferentes realidades das mulheres brasileiras durante os Anos Dourados (1950-1960) a partir da série “Coisa mais Linda”, da plataforma de streaming Netflix, e da comparação entre o livro “Mulheres dos Anos Dourados” da historiadora Carla Pinsky e “Quarto de Despejo” da escritora Carolina Maria de Jesus. Feito isto, será buscado demonstrar as múltiplas vivências e formas de opressão que recaiam sobre as mulheres do período tratado. PALAVRAS-CHAVE: Classe social. Mulheres. Opressão. Revistas. No ano de 2019 a provedora mundial de filmes e séries de televisão, Netflix, lançou uma produção brasileira intitulada como “Coisa mais Linda”, série de autoria de Giuliano Cedroni e Heather Roth. Composta até o presente momento por apenas uma temporada com sete episódios de em média 45 minutos cada, a série tem como um dos objetivos retratar uma história sobre libertação feminina durante os anos dourados da passagem da década de 1950 para 1960, enquanto aborda a ascensão da Bossa Nova. Logo no primeiro momento podemos perceber diferentes tipos de ambições e visões sobre o que é independência feminina. Deste modo, o presente trabalho, a partir do confronto de narrativas apresentadas na série, busca fazer uma comparação da historiografia produzida baseada na classe média brasileira da época com os escritos da Carolina Maria de Jesus. Amada por uns e criticada por outros, um dos apontamentos negativos que a série recebe é sobre a superficialidade que são tratados determinados temas tão caros ao feminismo e ao movimento das mulheres, como: maternidade, violência doméstica, estupro marital, aborto e racismo. Apesar da proposta ser uma produção que fale sobre libertação feminina, a série em questão acaba caindo em lugares comuns e com frases de efeito, naturalizando, como quem diz “era assim mesmo”, situações misóginas e racistas, quando na verdade o que temos é uma superficialidade no estudo das complexidades das relações sociais da época. Como o trabalho em questão não é discorrer sobre cada possível problemática da série a ser levantada, e sim, a partir dela, refletir as opressões que recaem sobre as mulheres dos anos dourados, focaremos na relação entre a personagem Maria Luiza (Maria Casadevall), uma mulher branca paulista e filha de um cafeicultor da alta burguesia, e Adélia (Pathy Dejesus), uma mulher negra carioca e empregada doméstica de uma senhora branca, viúva e moradora do prédio onde Maria Luiza se hospeda no Rio de Janeiro. As personagens em evidência se conhecem logo no primeiro episódio e um dos frutos desse encontro é um convite de Maria Luiza para que Adélia se torne sócia do nigth club que a paulista pretende abrir nas terras cariocas. Passadas algumas situações, o primeiro grande embate entre as duas devido a visões de mundo diferentes ocorre no terceiro episódio quando há a frase famosa de Adélia: “Você tem razão, nós não somos iguais. Você sempre teve escolha, eu não.” (Coisa Mais Linda, 2019) Essa cena deixa explícito o contraste de lutas que existem no momento em que é adicionado as questões de cor e classe. Quando nós voltamos para o livro “Mulheres dos Anos Dourados” (2014) da historiadora Carla Pinsky, conseguimos compreender qual era a imagem da esposa ideal vendida pelas mídias. Pinsky, em sua obra, aborda as revistas femininas compreendidas no período entre 1945 a 1964 e mostra que o público alvo eram as mulheres da classe média brasileira, onde em sua esmagadora maioria eram retratadas nos periódicos como mulheres brancas, magras e detentoras de um certo poder aquisitivo. Enquanto isso, a escritora Carolina Maria de Jesus, no mesmo período das publicações das revistas estudadas por Pinsky, descreve no seu livro “Quarto de Despejo” (1960) a sua realidade: uma mulher preta, mãe solo de três filhos, catadora, pobre de uma periferia paulistana chamada Canindé. “Quarto de Despejo”, apesar do enorme sucesso, atualmente com mais de 1 milhão de exemplares vendidos, enfrentou desconfiança quanto a sua veracidade e resistência por parte da classe política da época, pois chocava com a imagem que tentavam vender de um Brasil moderno e berço da Bossa Nova. Não podemos nos esquecer que no mesmo período de publicação da obra (1960), as revistas fervilhavam com matérias sobre celebridades, anúncios sobre os mais novos aparelhos tecnológicos e o quanto isso traria conforto e felicidade aos lares brasileiros, enquanto que Carolina de Jesus denunciava em suas páginas a realidade nua e crua da violência doméstica e da população negra num Brasil com uma taxa de analfabetismo de cerca de 50.6%, um aumento desorganizado das cidades e uma situação de fome alarmante. “20 de maio de 1958: “Como é horrível ver um filho comer e perguntar: Tem mais? Esta palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cérebro de uma mãe que olha as panelas e não tem mais.”.” (JESUS, p. 34) Nas revistas femininas abordadas por Pinsky a temática da fome não era uma questão, pois as diversas páginas dedicadas a dicas culinárias e aparelhos domésticos não fariam sentido se o público alvo não tivesse acesso a alimentos. Enquanto que a autora de “Quarto de Despejo” mostra o desespero da luta contra a fome e o sentimento de incapacidade por não conseguir prover alimento para os filhos: “E assim, no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual: a fome!” (JESUS, p. 9) Sobre isso a série da Netflix, apesar de mostrar a dificuldade em sustentar a filha Conceição (Sarah Vitória), acaba retratando uma realidade muito branda para a personagem da Adélia quando comparamos com os escritos da Carolina Maria de Jesus e da situação da mulher negra e da favela da época. Enquanto que para Adélia (e igualmente para Carolina de Jesus) uma boa mãe é aquela que consegue sustentar os filhos, nas revistas femininas estudadas por Pinsky a maternidade ideal não contempla a ideia da mulher ter que trabalhar fora do lar, e sim equilibrar os cuidados com os filhos, com as atividades domésticas e com um casamento estável e feliz que em outras palavras significa “Marido feliz, vida feliz.”, palavras da própria mãe da personagem Maria Luiza. “Nos anos dourados, a experiência de ter filhos em uma família de classe média é marcada por distinções rígidas de gênero: as fronteiras entre as atribuições do pai e da mãe são bem definidas e não se confundem. Correspondem a critérios preestabelecidos sobre o que compete ao homem e o que é obrigação da mulher.” (PINSKY, p. 293) Ou seja, enquanto que para as personagens femininas brancas e da classe média da série em questão trabalhar tinha mais uma função de realização pessoal e sentimento de independência, para a personagem Adélia, representante da mulher negra e pobre da época, o trabalho tinha um caráter de necessidade. Logo, os papéis de gênero muita das vezes não se adequava a realidade das mulheres negras e das mulheres pobres, pois não podiam atender ao estereótipo vendido nas revistas da esposa confinada ao lar. E por conta disso podemos até achar que essa narrativa de esposa, dona de casa e mulher ideal vendida nas revistas se restringia somente as mulheres de classe média, porém esses padrões se reverberam para além dos nichos para os quais são voltados e desse modo oprimem também mulheres que não compartilham da mesma realidade e que enfrentam dificuldades ainda maiores para alcançar os modelos de felicidade comercializada. Quanto ao retrato da favela na série, podemos fazer um comparativo com a visão que Carolina Maria de Jesus tinha sobre o tema. Em seus escritos fica claro o deslumbre com a cidade e o descontentamento com a favela. Esse olhar da autora é contrário a imagem romantizada que o governo do período adotou para tentar ignorar a precariedade que as pessoas se encontravam, uma imagem carregada de estereótipos que associam o negro obrigatoriamente a saber fazer samba e que por isso a periferia seria um lugar musical, repleto de pessoas alegres, unidas por conta da adversidade. Obviamente o ponto aqui não é vilanizar as favelas, mas sim não romantizar as dificuldades que as pessoas enfrentam por falta de políticas públicas de qualidade. Em “Coisa mais Linda” temos essa romantização, onde os corpos negros são cortados pelos enquadramentos das câmeras que privilegiam os personagens brancos que sobem o morro (bom ressaltar que não há menção a qual comunidade se trata, ou seja, “morro é morro”) para poderem se divertir e sambar. O que podemos assegurar é que haviam diferentes realidades para essas mulheres dos anos dourados, o que não as isentam de sofrer opressões em comum, porém a posição social e a cor definem as formas e os mecanismos que essas opressões são impostas. Por exemplo, enquanto as mulheres brancas de classe média sentiam-se frustradas por não poderem exercer uma profissão, por estarem presas aos domínios dos pais, irmãos e maridos, em casamentos na maioria das vezes violentos e por sofrerem restrições morais, as mulheres das classes menos favorecidas se encontravam sem escolaridade, acorrentadas em trabalhos repetitivos e sem futuro, e do mesmo modo enfrentavam a submissão sexual, matrimonial e restrições morais similares. Agora, quando adicionado o fator cor, encontramos mulheres negras que amargavam com praticamente todas as opressões citadas anteriormente, além de terem que lidar com a hiper sexualização, a violência policial, trabalhos mais pesados por conta do estereótipo da mulher preta ser resistente, e a inferiorização intelectual devido ao preconceito racial e de gênero. Logo, lendo os diários da Carolina Maria de Jesus e estudando sobre o período, conseguimos conceber que as mulheres negras da época aqui trabalhada também se sentiam na obrigação de atender os padrões morais estampados nas revistas femininas estudadas por Carla Pinsky, além de enfrentar opressões próprias do racismo. Ou seja, independente da classe social, de ter dinheiro ou não, a visão que se tinha das mulheres negras era instantaneamente pior que a visão sobre as outras mulheres. Assim, fica claro que as opressões são influenciadas sim pelo recorte social, racial e regional, tornando-se problemático generalizar e universalizar as pautas, sendo de extrema importância a compreensão das convergências e divergências das diferentes lutas e suas complexidades, complexidades essas que vão além do que foi retratado na primeira temporada da série em pauta da Netflix.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Ministério da Educação. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Mapa do Analfabetismo no Brasil. Brasil, 2003.

JESUS, Carolina Maria. Quarto de Despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Francisco Alves, 1960.

LIMA, Flávia Santos. Anos Dourados: a representação da mulher no jornal das moças na década de 1950. 2018. Trabalho de Conclusão de Curso – Faculdade de História da Universidade Federal de Sergipe, São Cristóvão - SE, 2018.

PINSKY, Carla Bassanezi. Mulheres dos anos dourados. São Paulo: Contexto, 2014.

VASCONCELOS, Francisco de Assis Guedes. Josué de Castro e a Geografia da Fome no Brasil. Rio de Janeiro: Cad. Saúde Pública, 2008.


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[1] Graduanda em Licenciatura Plena em História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro [contato.marianadebrito@gmail.com]

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