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TEOLOGIA FEMINISTA: UMA REVOLUÇÃO NO ESPAÇO RELIGIOSO BRASILEIRO

Ester Joanny Soares de Oliveira¹


RESUMO

Neste trabalho me proponho a resgatar um breve histórico da Teologia Feminista no Brasil, assim como revisar seus principais conceitos e revelar sua atuação no movimento feminista brasileiro, demonstrando assim sua organicidade e relevância político-social para as mulheres do Brasil e América Latina. Minha pesquisa também se desenvolveu a partir do levantamento de dados referentes à disparidade numérica de homens e mulheres na comunidade teológica, tendo o objetivo de analisar a situação da mulher nesses espaços. Os resultados demonstram como a presença feminina dentro do espaço religioso ainda é limitada, em decorrência de leituras machistas do texto bíblico.


PALAVRAS CHAVE: Teologia Feminista, Teologia da Libertação, Feminismo, Religião.


Abstract:

In this work, I propose to restore a brief history of the Feminist Theology in Brazil., as well as a review of key concepts, and to reveal their operations in the Brazilian feminist movement, and a testament to its organic and the relevance of the political and social-for women in Brazil and in Latin America. My research has also developed from the survey data relating to disparities in number of men and women in the community of theology, with the aim of analyzing the situation of women in those spaces. The results show how the presence of women within the religious space is limited, as a result of a male chauvinist reading on the text of the bible.


KEYWORDS: Feminist Theology, Liberation Theology, Feminism, and Religion

HISTÓRICO

A origem da teologia feminista no contexto brasileiro e da América Latina surge na década de 70, fortemente inspirada pela Teologia da Libertação, movimento encabeçado pela Igreja Católica, seus adeptos pregavam uma nova leitura da Bíblia que motivava a luta pela libertação humana, em especial a dos pobres, aliada a [...] uma forte crítica moral e social do capitalismo dependente, o desenvolvimento de comunidades de base cristãs entre os pobres como uma nova forma de Igreja [...] (LÖWY, Michael. A guerra dos deuses: religião e política na América Latina. Petrópolis: Vozes, 2000, apud CAMILO, Rodrigo, 2011, p. 3)

A partir desse olhar, teólogos, padres e pastores se inserem nas causas de movimentos sociais, como a luta por reforma agrária e a luta dos sem teto, assim como também desempenhando um papel de destaque no período da ditadura militar ao denunciarem os abusos cometidos pelos militares. Por se posicionarem a favor dessas lutas e pela presença de um discurso visto como “comunista” muitos sofreram perseguição do regime. Porém, como afirma Ivone Gebara (2006, p.300) [...] o discurso sobre a justiça social não incluía a justiça e a igualdade de gênero. A partir dessa problemática surge a teologia feminista na América Latina, um movimento contextualizado para a realidade das mulheres latino americanas, que propõe a interpretação crítica do texto bíblico se valendo do contexto histórico, político e social, a partir das vivências destas mulheres é que a Teologia Feminista articula seu referencial de interpretação, segundo Ruether (1993, p. 18), citada por Stroher (2005,p.122)


As experiências de opressão e libertação tornam-se o eixo central da Teologia Feminista. “A experiência humana é o ponto partida e de chegada do círculo hermenêutico. [...] A singularidade da Teologia Feminista não reside em seu uso do critério da experiência, mas, antes, em seu uso da experiência das mulheres, que no passado foi quase que inteiramente excluída da reflexão teológica”.


Essa visão crítica do texto bíblico e o uso da experiência das mulheres constituem a hermenêutica de suspeita e a hermenêutica feminista de libertação, respectivamente, centrais para a compreensão dos objetivos da TF e de como ela revoluciona a disciplina teológica e a prática religiosa. A hermenêutica da suspeita parte do pressuposto de que o texto bíblico é fruto de circunstâncias históricas de uma determinada sociedade, por esse motivo o texto contém reflexos de uma visão de mundo patriarcal, que não limita sua capacidade de influência ao espaço das tradições e costumes religiosos, mas acaba por afetar o espaço doméstico, onde as mulheres sofrem os diversos tipos de violência, sendo assim o texto contém diversas contradições que dão margem a uma leitura machista da Bíblia, leitura essa que fundamenta a exclusão da mulher no espaço religioso, além de justificar certas violências de gênero. Ao questionar a suposta neutralidade do texto é possível reconstruir sentidos e interpretações, recuperar histórias e tradições de mulheres, além de construir novas possibilidades de leituras e espiritualidades (Stroher, 2005).

Por já ter questionado as bases históricas do texto bíblico é possível avançar para o outro aspecto do fazer teológico feminista: as experiências de libertação; a hermenêutica feminista de libertação também parte de uma leitura sócio histórica da Bíblia, mas, ao mesmo tempo se utiliza de uma leitura libertadora para mulheres e crianças, que orienta a prática com o objetivo de transformação das estruturas de dominação e exploração, essa premissa se baseia em


[...] perceber a liberdade humana como conquista histórica; [...] compreender que a passagem de uma liberdade abstrata para uma liberdade real não se realiza sem luta – cheia de obstáculos, de possibilidade de extravio e tentações de evasão – contra tudo o que oprime o ser humano. Isto implica não apenas melhores condições de vida, mudança radical na estrutura social, mas muito mais: a criação contínua, e sempre inacabada, de uma nova maneira de ser pessoa, uma revolução cultural permanente. (GUTIÉRREZ, Gustavo. Teologia da Libertação, Perspectivas 2ª ed. São Paulo: Edições Loyola, 2000, p 90, apud VENANCIO, Silvana, 2008, p.18)


Entende-se que as experiências de todas as mulheres devem ser levadas em consideração, assim como os contextos em que estão incluídas, utilizando as categorias de análise, de gênero, raça e classe, a partir dessas premissas a Teologia Feminista se articula na América Latina, trazendo uma perspectiva libertadora para todas as mulheres. Justamente por propor uma reflexão e prática a partir de diferentes experiências ela acaba por comportar dentro do seu corpo teórico outras pautas, como a Teologia Feminista Negra e Teologia Eco Feminista, não irei me aprofundar nelas nesse momento, mas uma breve definição das duas ajuda a compreender a extensão da Teologia Feminista,


[...] Teologia Feminista Negra parte de questões de sua cultura e do que implica ser mulher negra. Busca questionar e desconstruir a teologia patriarcal - que tem como identidade um rosto branco, masculino e elitista. Esta imagem patriarcal de Deus incentiva e colabora para a manutenção de uma sociedade e teologia racistas, sexistas e classicistas, onde a mulher negra e pobre torna-se triplamente oprimida.

Por fim, a Teologia Eco feminista parte do princípio de que mulher e natureza estão na mesma condição de dominação e exploração. Religiosamente, a natureza era representada e consagrada por Deuses e Deusas. Porém, com a queda do politeísmo e o início do monoteísmo, passa-se a adorar um Deus patriarcal e masculino que vê na mulher, assim como na natureza, um perigo que deve ser dominado. (KROB, Daniéli. Teologia Feminista Latino-Americana, Teologia Feminista Negra e Teologia Ecofeminista: partes de um todo. 2014, p.3632)

TEOLOGIA FEMINISTA NO CONTEXTO BRASILEIRO

Uma das conquistas mais importantes para a TF no Brasil se deu através do surgimento da primeira matéria de Teologia Feminista, na Faculdade EST- Escola Superior de Teologia, o movimento se deu através de um grupo de mulheres, composto por estudantes que ano de 1985 iniciam uma comissão em prol da existência de uma cátedra de Teologia Feminista e para terem uma professora teóloga, a aprovação da reivindicação só acontece em 15 de maio de 1990, no entanto, o debate ainda persistia na escolha do termo a ser usado, inicialmente era pensado o uso de termos como Teologia Feminina ou Teologia da Mulher, já que o termo teologia feminista só seria adotado oficialmente na América Latina a partir de 1993, as alunas no entanto atuaram de forma veemente a favor do uso do termo feminista, por significar o alinhamento da teologia com as pautas do movimento feminista e ao mesmo tempo reafirmar seu caráter político, dessa forma em 30 de maio de 1990 é aprovado por unanimidade o nome Teologia Feminista para a cátedra ( Stroher, 2005, p.177-118).

Essa trajetória é contada por Marga Stroher em um artigo publicado em 2005, nele ela afirma que até aquele momento esse era o único curso dentro de um seminário teológico com a temática feminista, a partir dessa constatação desenvolvi uma pesquisa para responder duas perguntas: Hoje, 15 anos depois, existe mais alguma faculdade com a matéria teologia feminista? E, qual é a porcentagem de professores e professoras? Meu critério de pesquisa se limitou às faculdades que obtiveram a nota 5 no indicador Conceito de Curso, de acordo com o MEC[1], em cursos presenciais e à distância. A fonte de pesquisa foram as informações disponibilizadas nos sites de cada instituição, totalizando 20 faculdades pesquisadas, importante ressaltar que nem todas possuíam essas informações disponíveis, e essas exceções serão pontuadas.

No primeiro ponto as conclusões que obtive foram as seguintes:

- A única a ter uma matéria de Teologia Feminista é a supracitada, Faculdade EST, no entanto, na Faculdade Palotinas existe uma disciplina optativa de Teologia de Gênero, mas não pude encontrar uma descrição da matéria, por esse motivo não posso afirmar que a mesma segue uma perspectiva feminista; a única faculdade que não encontrei a grade curricular foi a FAAMA (Faculdade Adventista da Amazônia).

No segundo ponto pude obter os seguintes resultados:

- Das 20 faculdades pesquisadas apenas 14 possuíam a descrição do corpo docente. Sendo assim os números que obtive foram baseados nessa quantidade de instituições.

- O resultado final deu-se da seguinte maneira:

HOMENS : 185

MULHERES: 32

Fonte: A autora (2020)


Gráfico 2- Total por porcentagem





Fonte: A autora (2020)


A partir desses dados podemos considerar que a presença das mulheres dentro da Teologia ainda é mínima, os fatores que levam a essa situação são diversos, mas podemos apontar alguns principais: muitas denominações ainda não autorizam a ordenação de mulheres, elas podem até ocupar até certos cargos de autoridade dentro da congregação, porém, são impedidas de exercer o ministério pastoral, resultado direto de doutrinas que reforçam papéis de gênero, a exemplo da maternidade como destino natural; silenciamento dentro do espaço religioso justificado por passagens bíblicas, construção do ideário de mulher cristã como mãe e esposa, devendo zelar pela manutenção do lar e da criação das crianças; controle da sexualidade e do corpo; submissão à vontade do marido ou líder religioso da congregação por estes serem uma figura representativa de Deus. As mulheres não são incentivadas a serem ministras, a autoridade que cabe ao papel de liderar uma comunidade não se encaixa nos traços de personalidade que são considerados femininos, é muito mais valorizado servir a Deus e a igreja como uma boa esposa e uma boa mãe. Por essas mulheres não ocuparem os espaços de produção do conhecimento e não ocuparem cargos principais nas comunidades de fé, suas pautas consequentemente continuam a serem esquecidas pela Teologia predominante. No entanto, existem algumas mulheres que resistem nesse espaço dominado pelos homens, de acordo com a análise da atuação da TF no Brasil, feita por Ivone Gebara (2006), ela expõe que essa teologia se desenvolve as margens, não sendo assumida pelas instituições religiosas, o perfil dessas mulheres se compõe de teólogas que aliam seu trabalho acadêmico com a participação nos movimentos sociais, ocorrendo,

sobretudo, na forma de assessoria aos movimentos populares ou na forma de cursos regulares dados, por exemplo, ao MST, ao movimento de trabalhadoras rurais, movimento de domésticas, grupos de mulheres da periferia, grupos de consciência negra, quadros sindicais femininos, etc. (Estudos Feministas, Florianópolis, p.299)

Aliando a teoria com a práxis a Teologia Feminista se insere no cotidiano das mulheres brasileiras, não restringindo seu espaço de atuação aos espaços religiosos, pelo seu caráter político e por carregar em seu nome o termo “feminista” esta Teologia ainda é desconhecida na maioria das congregações católicas e protestantes, e as mulheres que se declaram abertamente como teólogas feministas acabam por sofrer represálias pelos movimentos mais conservadores e um afastamento compulsório das atividades nas igrejas tradicionais, algumas congregações e faculdades com um caráter mais progressista acabam por acolher essas mulheres. A história da Teologia Feminista nos deixa claro que esse é um movimento de muita luta, que resiste num espaço predominantemente patriarcal, mas que traz esperança para muitas mulheres que sentem excluídas nos espaços que praticam sua fé ou as que tiveram que se afastar desse espaço justamente por perceber essas contradições.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CAMILO, Rodrigo Augusto Leão. A TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO NO BRASIL: DAS FORMULAÇÕES INICIAIS DE SUA DOUTRINA AOS NOVOS DESAFIOS DA ATUALIDADE. In: II SEMINÁRIO DE PESQUISA DA FACULDADE DE CIÊNCIAS SOCIAIS, 2011, Goiânia, Goiás, Brasil. [...]. [S. l.: s. n.], 2011. p. 1-8. Disponível em: https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/253/o/Rodrigo_Augusto_Leao_Camilo.pdf. Acesso em: 29 abr. 2020.

KROB, Daniéli Busanello. Teologia Feminista Latino-Americana, Teologia Feminista Negra e Teologia Ecofeminista: partes de um todo. In: REDOR, 18°., 2014, Recife-PE. Tema: Perspectivas Feministas de Gênero: Desafios no campo da militância e da prática, p. 3629-3644. Disponível em: http://www.ufpb.br/evento/index.php/18redor/18redor/paper/viewFile/535/862. Acesso em: 16 abr. 2020.

NUNES, Maria José Rosado. TEOLOGIA FEMINISTA E A CRÍTICA DA RAZÃO RELIGIOSA PATRIARCAL: Entrevista com Ivone Gebara. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 14, ed. 1, p. 294-304, janeiro/abril 2006. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/S0104-026X2006000100016. Acesso em: 15 abr. 2020.

OLIVEIRA, Marco Davi. Caminhos de Uma Favela: Fé e transformação social. 1. ed. São Paulo: Editora Recriar, 2019. 163 p.

PEDRO, Joana Maria. Traduzindo o debate: o uso da categoria gênero na pesquisa histórica. História [online]. 2005, vol.24, n.1, pp.77-98. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-90742005000100004.

STRÖHER, Marga J. A história de uma história-o protagonismo das mulheres na Teologia Feminista History of a history: women protagonism in Feminist Theology. História Unisinos, [s. l.], v. 9, ed. 2, p. 116-123, Maio/Agosto 2005. Disponível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/historia/issue/view/129. Acesso em: 14 abr. 2020.

VENANCIO, Silvana. UMA ABORDAGEM ANTROPOLÓGICA DA HERMENÊUTICA FEMINISTA NA AMÉRICA LATINA. Relatório PIBIC, PUC RIO, 2008. Disponível em: http://www.puc-rio.br/pibic/relatorio_resumo2008/relatorios/ctch/teo/teo_silvana.pdf. Acesso em: 14 abr. 2020.

WESTPHAL, Euler R. UMA BREVE HISTÓRIA DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO: UM OLHAR CRÍTICO SOBRE OS PRIMEIROS 20 ANOS. Revista Teológica Brasileira: Vox Scripturae, São Bento do Sul/SC, v. XIX, ed. 1, p. 68-98, Maio 2011. Disponível em: http://vox.flt.edu.br/oai/open/11/89. Acesso em: 29 abr. 2020.

[1] Disponível em: https://www.mundovestibular.com.br/universidades/melhores-faculdades-de-teologia.

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¹Graduanda em Licenciatura Plena de História pela Universidade Federal de Alagoas. Bolsista no Projeto de Extensão “A questão agrária no Sertão de Alagoas: contradições e lutas de resistência.”

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