RELATOS

Sílvia Freitas

 
 “Eu estou no nono período do curso de História aqui na UFRN e eu meio que passei a maior parte do tempo na universidade num relacionamento bem abusivo com um colega de turma, nós namorados por quase 3 anos. Então, acho que o que eu mais tenho memorizado enquanto opressão é o fato de não poder nem tomar decisões dentro dos meus interesses no curso por ser mais confortável estar sempre pagando as mesmas disciplinas com ele, e pra mim ainda é o menos problemático em todo o relacionamento. Então além de controlar minhas disciplinas ele também tentava controlar minhas atividades dentro da universidade em geral.
Eu sou militante desde que me entendo por gente e tive que me afastar da militância porque ele me colocou na situação "ah, ou eles ou eu". E num tipo de relacionamento como esse parece realmente o fim do mundo ser colocada nessas situações. Por não poder fazer muito o que eu queria fazer, eu acabei desenvolvendo uma baixa autoestima que eu ainda não consegui recuperar, porque eu ia mal em disciplinas que eu não queria pagar. E perdi quase que completamente a vontade de estudar, e só ia pra a universidade porque eu não tinha a opção de não ir.
Minha família é bem pobre, e eu sou a terceira neta da minha avó a ingressar na universidade pública, a expectativa da minha família é realmente que eu possa ascender minimamente pra ter uma vida melhor que meus pais. Mas era complicado, justamente porque eu ficava "Mas o que eu ‘tô’fazendo aqui?". Até que em 2018 eu ingressei no Laboratório de Experimentação em História Social da UFRN, que é coordenado pela professora Carmen, e meio que foi a primeira vez que eu me encontrei dentro do curso. Carmen Alveal, o nome da professora. Enfim, mas assim que entrei no laboratório meu namorado da época começou a criar mais novas cobranças, que me faziam muito mal por passar 90% da minha semana com ele. Ele sabia minhas notas, minha rotina de estudos, onde eu estava 100% do tempo, a hora que eu dormia e acordava e ele monitorava tudo. Por exemplo, se eu dormisse às 3 horas da manhã, no dia seguinte era certo eu ter mil áudios no celular cobrando por que eu dormi tão tarde e questionando o que eu estava fazendo ou com quem eu estava conversando. No fim de 2018 ele começou a impor uma rotina absurda, me fazia acordar às 6 h da manhã pra que eu fosse à universidade estudar, mas à tarde eu tinha atividades do LEHS e à noite eu tinha aula todos os dias, chegando em casa 23 h, eu chegava a dormir 3 a 4 horas por dia e isso me gerou alguns problemas maiores com ansiedade, que se adicionaram ao meu histórico depressivo. Em janeiro de 2019 a professora Carmen disse que submeteu um projeto de pesquisa que havia sido aprovado, mas que poderia ser cortado devido à conjuntura do governo Bolsonaro e tal, mas que eu era uma das escolhas dela pra ser bolsista e participar da IC do projeto. Inclusive ela me apoiou justamente por ter tido poucas bolsistas mulheres e disse ver potencial em mim, mas que me achava relapsa, e eu não conseguia explicar que era devido minha baixa autoestima por ter sempre alguém falando que eu estudo de menos, que eu me reúno com perdedores, que minhas escolhas vão me tornar uma perdedora e etc. Meio que no mês que eu consegui a IC eu determinei que era a hora do namoro acabar porque todo mundo, exceto ele, viam potencial e qualidade em mim e desde que acabou as coisas vem melhorando muito, minhas notas, minha ansiedade diminuiu bastante, eu estou atuando politicamente e agora construo não somente a minha organização como a Federação do meu curso. Meio que notei que eu ainda posso fazer a diferença e que eu tenho muito a contribuir, e não que eu sou uma perdedora.
Acho que a experiência me tornou bem mais forte e agora eu sei que eu não dependia de ninguém me controlando ou decidindo o que era melhor pra mim e é o que aconselho a todas as mulheres que passam o que eu passei. É difícil, mas é possível.”

 

Elisabeth

 “Bom, meu nome é Elisabeth Oliveira Dias, sou discente do curso de Licenciatura Plena em História pela Universidade do Estado do Pará, campus XI, São Miguel do Guamá, turma de 2019. Sou natural de Ananindeua, área metropolitana de Belém, nascida e criada no bairro Distrito Industrial, onde passei boa parte da minha infância. A verdade é que em qualquer canto ser mulher não é tarefa fácil, e no Brasil não é diferente. 
Cresci em uma família um tanto quanto rígida e machista, onde eu desde cedo tentei lutar pelo meu espaço que eu sentia não ter: o que acontecia é que eu me sentia oprimida, destinada a ser a sombra do meu irmão mais velho, por ele ser homem e eu mulher. E desde muito jovem enfiei na cabeça que eu queria ser alguém que seria lembrada, alguém importante, alguém que as pessoas, no futuro, olhariam pra trás e falariam "carraca, ela foi incrível". Então eu comecei a minha luta, entre opressões externas a minha casa e as internas, fui tentando moldar a mulher que eu gostaria de ser quando crescer. Isso sempre foi muito claro na minha cabeça, sabe? Crescer, ser importante, ser lembrada. Meu pai nunca me viu, sou filha de mãe solo.
Nunca tive de fato uma representação masculina, o que me fez perceber o poder feminino e então participar de rodas de conversas feministas. Eu sempre tentei, e tento até hoje, ser uma boa aluna, uma boa professora, porque às vezes, quando você é mulher e pobre, a sua única opção é ser incrível, ou você não sai do lugar. Eu nunca repeti de ano, sacas? Nunca fiquei em recuperação, nem na universidade, mas toda a minha inteligência, eu diria, não é algo natural, sabe? É algo que eu me forcei a ter pra poder sobreviver, porque mais importante que ser melhor que outras mulheres, neste mundo machista, é ser melhor que os homens. E a gente acaba tendo de abdicar as vezes das coisas, tipo, sei lá, uma vez minha professora falou sobre a imagem da estudante... Sobre como era necessário sermos puras, sabe? Porque isso pode influenciar no mercado de trabalho.
Sempre estudei em escola pública, dificilmente na vida tive privilégios, no meu último ano do ensino médio tive uma oportunidade, fazer um cursinho “pré-Enem”, e agarrei com todas as minhas forças, era tudo que eu tinha. Minha mãe queria que eu fosse médica, advogada, ou qualquer outra coisa "importante" (risos), mas eu queria ser professora, de “história”, desde o 9° ano. E finalmente vem a parte das conquistas, até porque a vida não é feita só de desgraças né? (risos).
Consegui passar no curso que eu almejava e ainda mais duas universidades, entrei na UEPA por uma questão de comodidade, por ser na cidade que moro, consegui me destacar e hoje trabalho em 3 projetos de aulas para “Enem”, tô estudando, pesquisando sobre mulheres, mostrar que temos valor, que somos pessoas também, mesmo que por muito tempo a gente tenha ficado de lado na “história”.
Tento fazer tudo muito bem, pra continuar me destacando e conseguindo, realmente na força do ódio, oportunidades. Não é fácil ser mulher, universitária, feminista e ainda de campus de interiorização... Mas a cada dia que passa, a luta continua. Não vou romantizar, é difícil sim e todo mundo sabe. Mas não faço pra mim, ou pela minha amiga. Sei que as mudanças não vêm agora, mas faço pela minha sobrinha de 4 anos, pela minha vizinha de 7, porque elas não merecem saber o que é assédio, o que é sexualização, etc. Então como futura historiadora, estou aqui, olhando pra trás, mas sempre de olho no que está por vir, pra filtrar o melhor, e sempre cada vez mais, mostrar pro mundo que ser mulher é algo bom.
Acho que é isso, talvez tenha sido sucinta (risos). Acho que é importante falar que isso tudo gera uma puta pressão na cabeça da gente, tipo, eu tenho depressão e ansiedade a uns 3 anos desde que minha avó morreu, ela era minha referência de mulher, ela quem me criou. As vezes a noite eu choro e penso como é horrível ser mulher aqui, mas também lembro que um dia as coisas vão melhorar. Que vamos ocupar o que sempre merecemos.”

 

Isabela Tosta

 

“É sempre muito importante a gente enquanto movimento estudantil abrir espaço pra debater a questão da mulher na sociedade. Sobre minhas experiências enquanto mulher nessa sociedade capitalista e machista em que a gente vive eu gostaria de explorar sobre um trabalho que eu fiz na UFSC em 2019 e como eu cheguei nele. Eu sempre tive interesse por política e pelas questões que fazem nossa sociedade ser tão injusta e quando eu entrei na faculdade isso ficou mais latente, porém eu ainda não era organizada no Movimento Estudantil. Durante o período em que eu entrei na faculdade estouraram vários atos devido a conjuntura do golpe pela saída Dilma e eu nunca tinha tido contato com esse tipo de ação por ter vindo de uma cidade pequena.

Eu lembro que a primeira vez que eu fui pra uma manifestação meus pais enlouqueceram achando que eu ia levar bomba na cara e não que eles estivessem errados. Em março de 2017 eu passei a me organizar em um coletivo feminista, ao mesmo tempo passei a atuar no Centro Acadêmico de História (CALH). Eu achava muito difícil tá naquele ambiente, eu não me sentia ouvida, foi por isso que eu quis me organizar, pra me sentir preparada, pra fazer com que minha presença naquele espaço não fosse só minha e sim algo maior. Aí no meio do ano de 2017 eu entrei pra UJC e minha atuação no Movimento Estudantil passou a ser mais forte. Eu comecei a militar e a notar que quando tinha um homem falando, fosse ele meu camarada ou não, eu me sentia um pouco acuada em falar depois de um homem. É muito difícil ser militante e ser mulher, a gente cresce se sentindo inferior e aprendendo que a gente tem que escutar o que os homens tão falando, isso é muito introjetado e poucas vezes é consciente. Comecei a notar que quando eu estava num espaço onde tinham mais camaradas mulheres falando eu me sentia mais forte e melhor pra pensar e colocar minhas ideias. A presença masculina fazia eu me sentir como se estivesse sendo testada. O tempo foi passando e eu fui me fortificando enquanto militante.

Chegou o momento que eu finalmente consegui falar sobre essas coisas com outras pessoas, comecei a reparar que demora muito mais tempo pra uma mulher se sentir preparada pra fazer uma fala pública do que um homem, porque a gente carrega um peso maior do que deveria nas nossas ações e na nossa atuação política. Foi a partir disso tudo, durante uma disciplina que se chama “História de Santa Catarina” que tem como proposta principal a escrita de um artigo, eu resolvi fazer um artigo sobre as mulheres militantes na UFSC. A professora da disciplina passou um texto sobre a atuação das mulheres no período da Ditadura Militar na UFSC, surgiu aí a ideia de fazer entrevistas com militantes da Universidade, todas elas com quem eu já tinha atuado politicamente. Comecei a coletar informações sobre quais são os limites, quais são as dificuldades de ser uma mulher militante e todas as mulheres entrevistadas traziam com palavras diferentes o mesmo sentimento e as mesmas situações, então dava pra ver que não era uma coisa individual, é de fato uma realidade. Eu escrevi o artigo trazendo 8 entrevistas e todas elas comentavam sobre a cobrança que a gente recebe e faz sobre nós mesmas. As militantes mais velhas traziam relatos sobre experiências pesadas que elas passaram e que as militantes mais novas não experimentaram porque com o debate sobre as opressões crescendo no meio do Movimento Estudantil isso se tornou bem mais sutil.

Eu consegui ver o quanto a gente avançou, pelo menos na minha experiência, é muito difícil a gente ver violência verbal contra mulheres nesse meio, mas a gente vê que a maioria dos homens tem receio de falar sobre esses processos e questões de gênero no geral. Foi um trabalho muito bom porque me abriu os olhos pra muita coisa e ao mesmo tempo as pessoas começaram a me procurar pra falar mais sobre isso, foi um processo bastante rico nesse sentido.”

Louyse Sousa

 
“Quando eu tinha 16 anos e estava no 2º ano do Ensino Médio no Colégio Universitário (COLUN) da Universidade Federal do Maranhão tive minha primeira experiência com o Movimento Estudantil. Costumo dizer que foi um divisor de águas na minha vida. Devido a conjuntura do governo de Michel Temer com medidas como a PEC 241 (hoje Emenda Constitucional 95/2016), a Reforma do Ensino Médio e o incentivo do movimento Escola Sem Partido, a minha escola se viu ameaçada, até por ser uma instituição federal. Sendo assim o Grêmio Estudantil do COLUN deu início a um processo de greve e ocupação da escola com atividades voltadas à conscientização política.
Depois de alguns dias o Grêmio se afastou da organização, então um grupo de alunos interessados em dar continuidade e ampliar a ocupação assumiram o movimento. Eu fazia parte desse grupo. Foi nesse momento que eu tive um estalo e assumi o estado de militância. Nós ocupamos a escola por cerca de 45 dias com total protagonismo por parte dos alunos, estes tomaram consciência coletivamente num processo muito rico que gerou muitos frutos. Era um momento de polarização política, então também havia opositores ao posicionamento da ocupação que aproveitavam a situação pra me taxarem de “feminazi” e “vagabunda” por eu estar à frente do movimento. Mas saber disso nunca me abalou e só ajudou a me encher de convicção de que eu estava no lado certo e a procurar me fortalecer com as minhas e meus. Por outro lado, ter vivenciado de forma intensa todos os espaços do chão da escola durante a ocupação me fez perceber que a sala de aula era o local que eu gostaria de praticar meu ofício. De advogada eu quis ser professora. No terceiro ano decidi que queria ser professora de História. Com muito esforço entrei na graduação que eu almejava. No 2º período do curso passei a compor o Centro Acadêmico de História da UFMA. 
Depois que nosso CAHIS se filiou a FEMEH e eu comecei a participar dos encontros da Federação me senti mais contemplada dentro do Movimento Estudantil.”

 

Bárbara Tavares


 “Não me sentir inteligente o suficiente para me impor em qualquer local, principalmente o acadêmico, me persegue desde criança e isso se deve ao contexto familiar. Em casa, meu pai estava sempre ditando as regras e afirmando que apenas ele estava certo por ser homem e que eu deveria ser submissa e apenas aceitar tudo aquilo que um homem me mandasse; que a única função da mulher seria estudar, mas por conta do sistema, não pra ter um emprego, manter uma casa, ou até mesmo cuidar de mim, porque isso é papel do homem e não meu, uma mulher não pode ter autonomia, ele tem que ser dependente de um homem.
Então, no meio acadêmico essa ideia e ser inferior e não possuir capacidade de compreender muitas coisas me impede de falar e de ser vista pelos outros. Além de ser mulher e “naturalmente” invisível/silenciada, esses fatores me impedem de realizar muitas coisas e o Centro Acadêmico onde eu desempenho a função de diretora de planejamento me desafia a quebrar essas barreiras mentais e sociais.”

Iarah Lyra

 “Apesar de sempre ter me sentido amada pelos meus pais, eu sinto uma espécie de opressão desde a minha infância; isso aconteceu devido ao fato do meu pai sempre gritar muito. Esses gritos, de uma forma ou de outra me causavam algum tipo de medo, a longo prazo isso foi me silenciando, foi causando em mim uma dificuldade de me posicionar e por muito tempo acreditei que os homens realmente tinham mais voz que as mulheres. Gritos também estavam presentes nas minhas relações com homens.

Também acho importante citar as mulheres que estivem presentes na minha construção, na minha estruturação, minhas duas avós, a paterna e a materna que são duas mulheres que são pilares na minha vida, nesse momento que estou tendo vez e voz é impossível não falar delas, quando preciso falar nos espaços é pensando nelas que eu consigo me posicionar melhor. Falar essas coisas me fazem chorar, é algo positivamente tenso. É muito bom lembrar dessas questões, da força que as outras mulheres me trazem.”

Nicoly Hariel

 “Para falar sobre “ser mulher” irei me posicionar no meu local de fala de mulher negra. Eu já nasci com o fardo da opressão, sempre tive que lidar com o preterimento direcionado a pessoas brancas em todos os espaços. Culpei o sistema por toda a opressão, mas a todo tempo eu permaneci lutando contra ela, assim como lutei pela minha afirmação, pelo orgulho da minha cultura.

Uma das minhas maiores conquistas foi me olhar no espelho e ver em mim uma mulher negra e ter muito orgulho disso, antes eu me classificava como morena, porque era esses os termos que eu ouvia quando criança. Dentro da Universidade eu fui encontrando mais espaço para me posicionar nessas questões, principalmente quando entrei na gestão do Centro Acadêmico, poder contribuir na luta para que outras mulheres, especialmente as mulheres negras possam ter vez e voz é muito gratificante.”

Gabriela Moura

 “Assim como toda mulher eu fui oprimida simplesmente por essa condição. Dentro da minha família eu sempre fui silenciada, não podia expressar minha opinião. Por muitas vezes tive meu corpo sexualizado e também não tive espaço pra falar sobre isso, porque eu fui ensinada e por muito tempo acreditei que era algo normal, eu só passei a lutar e de alguma forma não aceitar essas coisas quando percebi que aquilo que acontecia comigo era um problema social e que eu não devia naturalizar. O Centro Acadêmico cujo eu faço parte da gestão atualmente foi essencial para que eu percebesse meu local de fala como mulher e encontrasse forças para lutar contra essas opressões.”

Juliana Silva

 

“Bem, eu me chamo Juliana Silva, estou com 27 anos, moro, estudo, trabalho e atuo na cidade de Santo Antônio de Jesus. Como quase toda menina periférica, dos 5 aos 13 anos frequentei, de forma imposta, uma igreja evangélica e, devido a isso, eu cresci com uma série de restrições. Leituras, desenhos, jogos, basicamente tudo (risos), tinha ligação com demônio. Mainha “trabalhou no fundo da cozinha dos outros” desde a infância; quando eu tinha mais ou menos uns 10 anos, com muita luta, ela conseguiu um emprego como auxiliar de enfermagem, onde permanece até hoje. Um pouco antes do meu nascimento painho estava trabalhando terceirizado em uma obra quando sofreu um acidente de trabalho, a justiça determinou que ele fosse efetivado como auxiliar de escritório no Estado, assim, conseguiu financiar uma casa de 4 cômodos na Urbis 4, porém, os empréstimos, dividas, e vários outros fatores sempre comprometeram a renda da família, não sobrando para viagens, cinema, teatro ou coisas do tipo. Esse contexto interferiu muito em meu capital cultural, meu real contato com os livros começou basicamente no ensino fundamental 2, na biblioteca da escola, que era pouquíssimo utilizada. O contato com filmes, clássicos e afins foi ainda mais tardio.

Fui mãe adolescente aos 15 anos, sofri inúmeros abusos, violências próximas e sociais, pois, por ter engravidado muito nova, passei a ser vista como “piriguete”, “má influência”, “a que a vida acabou”, e outros estereótipos. A gravidez e o nascimento do meu filho foi um processo difícil, me levando a um nível alto de depressão pós-parto, onde cheguei a desenvolver delírios e psicoses. Comecei a perceber o racismo de forma mais escancarada, principalmente dentro do processo de transição capilar, já que em 2009 esse processo de aceitação não tinha chegado na favela ainda. Também sofri violência obstétrica, e só não morri porque minha mãe, por ter conhecimentos de enfermagem, percebeu que meu sangramento não era normal. Estava tendo uma hemorragia grave e o médico plantonista se recusou a me atender, pois na noite anterior eu não consegui fazer o exame de toque (gatilho). Tudo isso ocorreu dentro de um atendimento pelo plano de saúde, digo isso para a gente refletir dimensão do racismo.

Um dia, eu estava no supermercado e uma mulher disse que minha barriga era limpa, já que meu filho era clarinho. São muitas violências... O nascimento do meu filho e ausências das amarras que antes prejudicavam o desenvolvimento do pensamento crítico, foram determinantes no meu processo de entendimento político e social, é como se os sentidos aguçassem. O autoconhecimento é um determinador social, se reconhecer preto, se entender diverso (LGBTQUIA+), dentre outras coisas é se entender enquanto transformador político e social. Atrelado ao conhecimento, é importante destacar que o apoio e afeto da minha família e amigos foram, e são, essenciais dentro dos processos, “eu sou porque nós somos”.

No âmbito acadêmico, fui a primeira da família a ingressar numa Universidade e provavelmente a primeira a concluir uma graduação. Em 2010 ingressei no curso de Física numa cidade vizinha, mas não consegui custear as despesas de passagens, uma política de permanência para mães universitárias ainda é uma deficiência das universidades. O sonho da universidade ficou ainda mais distante para a mãe adolescente de um recém-nascido, pobre e mal informada. Depois de algumas tentativas de encontro em outras graduações, em 2016 eu ingressei na UNEB e hoje estou no último semestre de Licenciatura em História. No mesmo período estava acontecendo o processo de ocupação das universidades, outra vivência significativa na caminhada, construindo espaços de lideranças, organizando atividades, eventos e potencialidades, consegui acolher pessoas que estavam vulneráveis e expostas as violências, como eu estive e estou em muitos momentos. Ingressar numa graduação em paralelo a uma ocupação estudantil ativa foi determinante, uma alerta para não cair no abismo que é se dissociar teoria e prática. A história não pode ser apenas vista de baixo, tem que ser contada, protagonizada e construída de baixo, com nossas próprias metodologias e vozes.

A partir daí já foi, eu entendi que o que eu fazia e faço é militância, passei a conhecer um monte de mulher preta “arretada” antes e depois de mim, e já não via dificuldade em identificar nossas próprias organizações e conhecimentos, aprendi o que é feminismo com minha avó me dizendo, “minha fia, você pode namorar e fazer o que você quiser, mas estuda e trabalha, para tu não depender de homem nenhum”, várias lições de vida, política e economia vindas de uma mulher que nunca pisou numa escola, feminismo negro raiz! Hoje eu estou presidenta do Cento Acadêmico de História Maria de Lourdes de Jesus, ocupo a cadeira na Secretaria de Combate as Opressões da Federação Nacional do Movimento Estudantil de História (FEMEH); membra pesquisadora do núcleo AfroUNEB; construo o Coletivo de Mulheres Negras Luiza Bairros e mais recentemente a Rede de Mulheres Negras da Bahia. Além disso, atuo como educadora social, aplicando a educação no seu sentido real, visando a emancipação das comunidades.

Atualmente foi adicionado mais um desafio em minha caminhada: a construção de uma pré-candidatura a vereadora em SAJ. O cenário atual é de 14 cadeiras, todas elas ocupadas por homens. A ausência de diversidade diz muito sobre a nossa estrutura política e demonstra as falhas dos que estão a anos dentro dos partidos reproduzindo a lógica do opressor, e isso não está distante da esquerda e de seus setores ditos revolucionários. A proposta da candidatura nasceu e é construída coletivamente pela rua e pelos movimentos sociais, devido à urgência e necessidade de representações políticas que entendam e valorizem as nossas vidas e (re)conheça as nossas potencialidades. Costumo dizer que representatividade importa e eles sabem disso, não é à toa a nossa ausência nos espaços de poder, os limites, estereótipos e críticas infundadas que eles designam para os povos periféricos, principalmente para quem está no corre da mudança de posições e do extermínio do genocídio do povo preto.” Parafraseando Viola Davis, "A única coisa que separa as mulheres negras de qualquer outra pessoa é oportunidade"!

Criado pela Secretaria de Comunicação da Federação do Movimento Estudantil de História

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