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Estamos de volta!

Nesta 2ª edição iremos trabalhar com a Educação e Relações Étnicos-Raciais, com foco nos povos Indígenas, Negros, Quilombolas e Ciganos. Sabemos que a educação e as relações sociais no Brasil não levam em conta a diversidade racial e étnica existente no país, o que temos é uma reprodução ideológica dominante que se baseia no eurocentrismo. Sabemos que dentro das escolas não se estuda a cultura desses povos e no ensino superior poucas são as universidades que oferecem disciplinas trabalhando esse assunto. A educação reproduz a visão elitista que retrata os europeus como pessoas com foco e competência para alcançar objetivos econômicos, como verdadeiros heróis. Essa visão opressora tem como consequência a hegemonia cada vez maior de uma classe sobre as outras. Uma sociedade justa necessita romper com a ideologia dominante e possuir uma identidade coletiva que se mobilize.

Dessa vez a Revista Quitinete vai trazer um novo olhar sobre esses povos, um lado da história que não foi contado nos livros, é hora desses povos contarem a sua própria história. Além de artigos e relatos também teremos novas colunas, a “Olha o meu CA”, onde alguns Centros Acadêmicos de História vão falar sobre trabalhos interessantes que eles desenvolveram e a “Alô Regional”, que vai falar como anda a articulação dos regionais da Federação Nacional do Movimento de História, além disso teremos duas entrevistas com professores universitários que trabalham com o tema que nos propomos a discutir nessa edição. Esperamos que essa edição seja enriquecedora para nossos leitores. Uma boa leitura a todos e até a próxima edição que, objetivando um melhor conteúdo para a nossa revista, será em abril, pois a Quitinete a partir de agora será um periódico semestral.

Venha fazer parte da equipe editorial da Revista Quitinete

Na luta se faz a História: o avanço do ensino remoto no Brasil

A pandemia da COVID-19 acarretou na suspensão das aulas e outras atividades acadêmicas presenciais, uma providência necessária para conter o avanço do vírus entre a população, visto que as instituições de ensino superior dependem do ir e vir de uma grande quantidade de pessoas. Logo no início da quarentena no Brasil os ministros do governo Bolsonaro autorizaram e orientaram a substituição das aulas presenciais pelas virtuais com o intermédio da tecnologia. Sabemos que as condições materiais e psicológicas para assistir aulas na modalidade de Ensino Remoto-ERE não são as mesmas para todos os alunos, também se sabe que essa modalidade de ensino afeta tanto os estudantes quando os docentes, visto que estes não foram formados para lecionar dessa forma.

Pensando nessas questões, a Federação Nacional do Movimento Estudantil de História FEMEH se propôs a discutir os desdobramentos do ensino remoto no Brasil e principalmente que consequências isso ia ocasionar para os estudantes. No período de 04 a 25 de julho a Federação organizou o Conselho Nacional das Entidades de História-CONEHI. Na Plenária Final desse evento, mais especificadamente na parte dos encaminhamentos, foi apontada a necessidade de a FEMEH assumir uma posição oficial em relação ao ERE. Algumas escolas apontavam que a posição devia ser radicalmente contra e outras defendiam que fosse contra, mas não de maneira radical. Como a Plenária estava se estendendo muito e ainda havia outros encaminhamentos para serem discutidos, foi decidido pela organização do Conselho e pelas escolas presentes que posteriormente a Federação organizaria uma Plenária para ouvir as escolas da melhor forma possível e dessa discussão iria se decidir, através de uma votação, qual seria o posicionamento oficial em relação ao Ensino Remoto.

Atendendo às demandas do CONEHI, no dia 12 de setembro de 2020 a FEMEH organizou a Plenária Deliberativa para decidir e oficializar sua posição em torno do avanço do ERE, a ocasião teve a presença de 2 convidados: Silvia Vitória, coordenadora de Licenciatura do Centro Acadêmico de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte-UFRN, militante do Movimento por uma Universidade Popular-MUP e membra da Secretaria de Formação da FEMEH Nacional e Arthur Ramos, graduando em história pelo Instituto Federal de Goiás-Campus Goiânia e também militante do MUP. Cada um deles teve 15 minutos para fazer uma exposição sobre o tema e logo em seguida cada escola inscrita teve a chance de fazer uma fala de no máximo 3 minutos sobre como estava as discussões acerca do Ensino Remoto nas suas instituições de ensino, sendo no final realizada uma votação.

A Plenária contou com a participação de 23 escolas, representadas pelos seus Centros ou Diretórios Acadêmicos de História: 3 da Região Norte, 7 da Região Nordeste, 1 da Região Centro-Oeste, 6 da Região Sul e 6 da Região Sudeste. A grande maioria das escolas relataram o quão prejudicial e excludente estava sendo a experiência do Ensino Remoto nas suas Universidades, mesmo naquelas onde alguns alunos recebiam bolsas, e apontaram que essa modalidade de ensino se tratava de um desmonte da educação pública, pois levava em conta os interesses e as condições materiais da elite e não levava em conta as dificuldades da maioria dos estudantes das universidades. Em relação à votação, 18 escolas votaram para que a FEMEH se posicionasse radicalmente contra o ERE: 6 do Nordeste, 3 do Norte,1 do Centro-Oeste, 4 do Sul e 4 do Sudeste; 4 escolas para que se posicionasse contra, mas não radicalmente: 1 do Nordeste e 3 do Sudeste; houve a abstenção de uma escola do Sul.

Diante das falas dos representantes de cada escola, a Federação organizou uma discussão que mostrou que a implantação do ERE não abrange o funcionamento da universidade, inviabiliza o modo como se dá diversos setores da vida dos estudantes: trabalho, pesquisa, ensino, extensão, moradia, alimentação, assistências médica e psicológica, dentre outros, uma vez que a vida universitária vai além do cumprimento da carga horária de aulas presenciais.

O Movimento Estudantil como um todo deve trabalhar com pautas que pensem nos estudantes como um todo, nenhum deles pode ficar para trás nem pode estar fora das pautas das nossas lutas. Não podemos lutar e nos posicionarmos por algo que vai excluir principalmente a população mais pobre, dessa forma é com muito orgulho que a FEMEH pode se dizer radicalmente contra o ensino remoto.

Leia a 2º edição da Revista Quitinete na integra:

Análise FEMEH

Apresentação
Por Teresa Patrícia  

A Quitinete é uma revista semestral de acesso gratuito, livre e irrestrito. Direcionada aos acadêmicos, profissionais e todos aqueles que se interessam pelo meio histórico. Se trata de um projeto da Federação do Movimento Estudantil de História (FEMEH), entidade de representação dos estudantes da Licenciatura e Bacharelado, da Graduação e Pós-Graduação dos cursos de História de todo o país.
A FEMEH tem como intuito direcionar o Movimento Estudantil de História e organizá-lo de forma democrática e combativa. Desde o ENEH de 2019 a Federação vem buscando se reaproximar da sua base, os Centros e Diretórios Acadêmicos, sejam esses filiados ou não. Dessa forma, seu objetivo é entender as necessidades das entidades, ajudá-las a serem mais ativas e combativas para assim somar forças com o Movimento Estudantil de História.
Essa revista, por ser um exemplo de reaproximação entre a Federação e sua base, irá publicar trabalhos feitos pelos historiadores, sejam eles graduandos ou graduados. É uma forma de mostrarmos as produções daqueles que nos ajudam a construir a Federação e que estão engajados na nossa luta, dialogar sobre as adversidades das minorias e defender as suas pautas. Além de ser um espaço para divulgarmos e disseminarmos os trabalhos e projetos desenvolvidos pela FEMEH.
Cada edição terá um tema principal, que será escolhido por meio de votação através das redes sociais da Federação. A primeira edição cujo  tema é "Mulher: Opressões, Lutas e Conquistas" será o espaço onde nós daremos vez e voz para quem é constantemente silenciada dentro da sociedade patriarcal na qual estamos inseridos, mas também que vem a cada dia conquistando espaços e fazendo suas vozes serem ouvidas através de muitas lutas: as mulheres. Esperamos que nossos leitores apreciem o conteúdo da revista e nos ajudem a construir as próximas edições.

 


 

Por que Quitinete?
Por Teresa Patrícia  


A escolha do nome da nossa revista se deu através de uma seleção na qual as pessoas podiam preencher um formulário divulgado no Instagram da Federação do Movimento Estudantil de História – FEMEH. A ideia era que junto com o nome sugerido também se colocasse a justificativa do mesmo. Assim sendo, tivemos seis sugestões: História Hoje, Quitinete, Oficina de Clio, Luís Carlos Prestes, Iroko e Esperança Garcia. Nossa pesquisa de opinião teve 90 votos e, com 30% dos votos, a sugestão mais votada foi para que nossa revista se chamasse Quitinete. Quanto ao ranking das demais sugestões, Oficina do Clio teve 21,1% dos votos, Esperança Garcia 17,8%, História Hoje 11,1%, Revista Luís Carlos Prestes e Iroko receberam ambas 10% dos votos. 
O nome Quitinete foi sugerido por Natanael Silva, graduando em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). A respeito da justificativa de sua sugestão ele afirmou: “Quitinete é uma pequena moradia com um ou dois cômodos e poucos móveis. A quantidade de moradores depende de onde o imóvel está situado na cidade: em uma zona nobre geralmente há quitinetes com um solteiro em busca da liberdade, uma emancipação das amarras das correntes familiares; na periferia, comporta uma família inteira. Quitinete é uma moradia menor, de baixo custo, muitas vezes passageira, as pessoas ficam até terminar seu curso superior ou até arrumar um “trampo” melhor. Essa revista é do Movimento Estudantil de História, construída por estudantes de História, logo pensar em um nome pra ela requer também pensar na estética dela, em como se encaixaria nos textos e na proposta da revista. Pensei em um nome original, como uma marca, mas que também fosse poético, que desse pra esse projeto um sentido único. Junto ao nome, imaginei algo focado no rearranjo dos móveis da quitinete, um improviso na arte de morar, também pensei que o nome era algo fácil de lembrar. Se nos atentarmos à poesia desse imóvel podemos ver nitidamente semelhanças com um historiador, alguém que aparentemente pode ser pequeno, mas com muito conteúdo e muita história.”

 


 

Capa

A 2º edição da revista Quitinete contará com uma série de relatos, vivências, entrevistas e artigos, que buscam uma aproximação com o tema proposto. Por conta disso, tentei representar os povos indígenas, quilombolas, ciganos e o povo preto na arte da capa, o que pode ser difícil levando em consideração a pluralidade desses povos e inúmeras figuras presentes na história de cada um. Espero ter me aproximado um pouco de cada um, mesmo sabendo que para isso, seria necessária uma arte ainda maior.

 

Imagens da capa: 1. Sônia Guajajara, 2. Aqualtune, 3. Lélia Gonzalez, 4. Roda Cigana, 5. Garota cigana (foto: Karen Ferreira).


 

FEMEH ENTREVISTA

Soraia Sales 

 

R.Q: Qual sua área de pesquisa na História? Pode nos contar um pouco sobre a temática geral com a qual você trabalha?


S.S.— Meu campo de atuação na pesquisa e ensino é a História Indígena. Esse campo renovou-se muito nas últimas três décadas, a partir de perspectivas interdisciplinares e acompanhando movimentos historiográficos, acadêmicos e históricos importantes, que buscaram construir visões críticas sobre o passado, com a inclusão de sujeitos antes marginalizados ou esquecidos pelas narrativas nacionais. O que este movimento chamado "Nova História Indígena" buscou, e nota-se, não foi restrito à experiência brasileira, foi repensar a atuação dos índios na História por meio de uma reinterpretação geral dos processos históricos que envolviam tais populações. Nesse sentido, procurou-se destacar que as atitudes das sociedades e indivíduos indígenas não estavam limitadas a sua resistência ou aculturação. Em seu conjunto, os novos estudos demonstraram que as atuações políticas indígenas, portanto, conscientes de suas agências, se tratavam de elaborações complexas de reivindicação de direitos, negociação e construção de novas identidades em universos coloniais, de formação de Estados nacionais e Estados consolidados.

 

 

R.Q: O que motivou e motiva você a pesquisar dentro desta temática?


S.S.— Desde a graduação a problemática da ausência das histórias das populações indígenas me chamava atenção. Lembro muito claramente de um curso em que a professora de arqueologia do departamento de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde realizei minha graduação e mestrado, Adriana Schmidt Dias, chamado Arqueologia Brasileira, muito bom, vale dizer, nos instigava a um percurso muito interessante sobre as pesquisas arqueológicas no Brasil, no último bloco, ainda refletia sobre o pós-conquista. Então, discutimos em uma aula como, na serra gaúcha, onde cresci, a história começa com a chegada dos imigrantes europeus, italianos, na segunda metade do século XIX. E como graduanda do curso de história que era, fiquei incomodada por nunca ter questionado algo que, após refletir sobre as experiências indígenas através do conhecimento arqueológico não fazia o menor sentido. As narrativas diziam que as terras eram vazias. A professora
mencionou pesquisas sobre uma região muito próxima, onde instalaram-se as colônias alemãs, nas quais os conflitos eram evidentes. Nasceu ali uma pergunta para o passado que me guia até hoje: o que aconteceu com os povos indígenas e como foi possível deixar de contar suas histórias?

 


R.Q: O que você pensava do tema geral de sua pesquisa quando a iniciou, e o que mudou nesse período?


S.S.— Continuando... Depois disso, procurei a professora Adriana e disse que queria entender como os indígenas do povo Kaingang, a essa altura eu já sabia quem eram os grupos que ocupavam a região da Serra Gaúcha no século XIX, haviam se relacionado com os imigrantes e como perderam suas terras. Foi assim que escrevi meu primeiro projeto de Iniciação Científica, experiência que desabrochou em um projeto de Mestrado. Meu primeiro trabalho apresentado em evento científico se chamava "Ninguém se orgulha do que não conhece, ninguém protege o que não é seu". (2005)!! Anos depois, li o trabalho de um intelectual indígena que admiro muito que dizia algo muito parecido (2006). Então, olhando à distância, percebo que ainda sou motivada pelas mesmas questões, que são a compreensão da formação histórica brasileira levando em conta as atuações dos povos indígenas; é também uma busca por autoconhecimento, por identidade individual e coletiva. De lá para cá foram 15 anos de diálogo, leituras, cursos de graduação, pós-graduação, eventos acadêmicos que permitiram uma formação multidisciplinar, interinstitucional, internacional, intercultural. O acesso a bolsas de estudo foi essencial em todas as fases.

R.Q: Você estabeleceu contato/diálogo com grupos e populações que são tema de sua pesquisa durante o processo de desenvolvimento da mesma? Se sim, como foi?


S.S.— O diálogo com comunidades e indivíduos indígenas do presente se deu em atividades também acadêmicas. Através das atividades de extensão da UFRGS conheci duas comunidades Kaingang, ambas em área urbana, uma em Porto Alegre
(Lomba do Pinheiro) e outra na região de São Leopoldo (Por Fi). Também visitei uma comunidade Guarani de Porto Alegre. De grande sorte foi ter tido a oportunidade de ser colega de Mestrado de Danilo Braga, historiador Kaingag. Naquela época, 2009 o tema das cotas era muito recente para as Universidades brasileiras e nas pós-graduações ainda menos cotidianos. Na época do mestrado também me aproximei bastante do Departamento de Educação da UFRGS onde conheci outros colegas indígenas e também iniciei um curso de idioma Kaingang.
No mais, da fase inicial de meus estudos para cá, cada vez mais representantes indígenas têm estado presentes em eventos acadêmicos, como convidados ou como vozes de resistência.
 Mas acredito que esse "contato" sempre me estimulou no sentido de que temos fins comuns perante a sociedade, entretanto, nossas formas de resistência possuem "armas e armadilhas" próprias, parafraseando John Manuel Monteiro (1999). Meu papel enquanto historiadora é procurar compreender processos históricos onde os povos indígenas foram atores sociais importantes e fundamentais para a construção de nosso presente.

 


R.Q: Tem conselhos, recomendações de textos e leituras em geral para pessoas que queiram iniciar pesquisas nesta área?


S.S.— A História Indígena é um tema fascinante. Possibilita uma ampliação no horizonte de formas diversas de ser e experimentar o mundo, não só em termos culturais, linguísticos, mas também econômicos e políticos. Mas também é um tema lidamos com temas que envolvem o genocídio, a escravização, violência e expropriação, mesmo que a história indígena tenha mostrado como esses atores sociais tenham agido mediante essas formas de opressão no tempo. A História indígena é um tema grande responsabilidade e necessidade social. Tanto a pesquisa quanto o ensino da temática exigem um alto grau de aprofundamento para que não se incorra em visões acríticas e reprodutoras de preconceitos sociais. É exatamente isso que está por trás da Lei 11.645/2008 e suas Diretrizes (2015).

 

 


Acredito que alguns textos e documentos sejam importantes para dar início ao estudo da temática:


DOCUMENTOS:


CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Capítulo VIII – Dos Índios (Arts. 231 e 232) BRASIL, Lei n. 11.645, de 10 de mar. de 2008. Altera a Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei n. 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena.

Brasília, DF, março 2008. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20072010/2008/lei/l11645.htm.


BRASIL. Diretrizes Operacionais para a Implementação da História e das Culturas dos Povos Indígenas na Educação Básica, em decorrência da Lei n. 11.645/2018. Brasília: MEC, 2015. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=27591-pareceres-da-camara-de-educacao-basica-14-2015-pdf&Itemid=30192

 


BIBLIOGRAFIA BÁSICA: 


ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Os índios na História do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2010.

ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. “A atuação dos indígenas na história do Brasil: revisões historiográficas”. Revista Brasileira de História, vol.37, n.75, pp.17-38, 2017. 


CUNHA, M. C. da. “Introdução a uma história indígena”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos índios no Brasil. Cia das Letras: Rio de Janeiro, 1992, pp. 9-24.


PACHECO DE OLIVEIRA, João. Uma etnologia dos “índios misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. Mana, vol.4, n.1, Rio de Janeiro, abril 1998, pp.47-77.


MOREIRA, Vânia Maria Losada. Reinventando a autonomia: liberdade, propriedade, autogoverno e novas identidades indígenas na capitania do Espírito Santo, 1535-1822. São Paulo: FFLCH Humanitas, 2019.


MONTEIRO, John Manuel. Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CITADAS:


BANIWA, Gersem dos Santos Luciano. O índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os
povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação
Continuada, Alfabetização e Diversidade; LACED/Museu Nacional, 2006.


MONTEIRO, John M. “Armas e armadilhas, História e Resistência dos índios”. In: NOVAES, Adauto. (org.). A outra margem do Ocidente. São Paulo: FUNARTE/Cia das Letras, 1999, pp.237-256.

 

 

Aldemir Barros 

 

 

R.Q: Qual sua área de pesquisa na História? Pode nos contar um pouco sobre a temática geral com a qual você trabalha?


AB – Minha área de atuação é História Social, com ênfase em História Social do trabalho. Atuo na linha de pesquisa em História Indígena e assuntos correlacionados: trabalho, território, cotidiano, etnicidade, movimentos sociais. A História Indígena, apenas recentemente, passou a ser alvo de historiadores. Na década de 1980 tem importância os estudos de John Manuel Monteiro, ganha corpo na década seguinte e hoje temos grupos de pesquisa em todas as regiões do Brasil, inclusive, a temática tem demonstrado a criação de pelo menos dois GT nos eventos nacionais da ANPUH.

 


R.Q: O que motivou e motiva você a pesquisar dentro desta temática?


AB – Meu contato com a temática indígena ocorreu quando bolsista de iniciação científica. Na oportunidade, participei de um projeto que pesquisava o cotidiano Xukuru-Kariri, especificamente, aqueles aldeados na Fazenda Canto. Durante dois anos, praticamente a cada quinze dias, visita a aldeia para fazer trabalho de campo. Realizava entrevistas sobre: práticas de cura, utilização de ervas, territorialidade, organização política, rituais de sepultamento, alimentação, escola, etc. Ao final, o trabalho de campo acabou virando visita a amigos.
Durante o trabalho de campo, acompanhei uma retomada de terra promovida pelos Xukuru-Kariri: a retomada do Sítio Macaco, que durou onze meses, com desfecho negativo para os indígenas. Esta vivência resultou em minha monografia. Depois de dois anos, participei de outro projeto: “Os índios na documentação oficial do Século XIX”. Nesta oportunidade, trabalhei na documentação do Arquivo Público de Alagoas, transcrevendo a documentação do fundo Diretoria Geral dos Índios.
Esta experiência, nesses projetos de pesquisa, motivou os meus estudos sobre a temática indígena. Assim, ingressei no mestrado do Programa de Pós Graduação em História Social da UFBA. Minha dissertação tem relação direta com essa experiência na retomada de terra e originou o livro “Aldeando Sentidos: os Xukuru-Kariri e o Serviço de Proteção aos Índios no Agreste alagoano”. Dei continuidade aos estudos no doutoramento, no mesmo programa, pesquisando sobre trabalhadores indígenas no século XIX. O envolvimento com o movimento indígena motiva a continuidade das pesquisas. Atualmente, sou professor de História da Universidade estadual de Alagoas, onde coordeno o Grupo TRAMO – Trabalhadores em Movimento, orientando projetos de iniciação científica sobre a temática indígena. Também tenho enveredado por outras áreas, como o áudio visual, fazendo roteiro e argumento do curta “Maninha XukuruKariri”, (Edital 006/2019 – FMAC/PMM – ANCINE). Pesquisa histórica e argumento de “As visadas do Pajé Miguel Celestino” (https://vimeo.com/198746470), dirigido pelo Cineasta Celso Brandão; Filme experimental “Ornintológicas” (https://vimeo.com/380003104), de Aldemir Barros e Celso Brandão, produzidos pela Estrela do Norte Filmes.

 


R.Q: O que você pensava do tema geral de sua pesquisa quando a iniciou, e o que mudou nesse período?


AB – Minhas pesquisas sempre tiveram envolvimento com o movimento indígena. Assim, as mudanças ocorridas em meus estudos sobre a temática, são dialéticas, representadas tanto pelo momento do movimento indígena – que sofreu grandes mudanças nos últimos vinte anos – quanto por minha trajetória pessoal e, sobretudo, enquanto pesquisador. Reconheço que a oportunidade de passar dois anos fazendo visitas quinzenais às aldeias indígenas motivou, naquele momento inicial, maior engajamento político pelo envolvimento direto com o movimento indígena, inclusive, participando dos acampamentos de retomada de terra, das assembleias, das ocupações, etc. Agora, o acompanhamento ocorre, infelizmente, mais a distância, o que pode ser observado nas mudanças dos recortes temporais definidos em minhas pesquisas.
Inicialmente, os meus objetivos era pesquisar sobre as retomadas de terras promovidas pelos indígenas. Na época, a configuração territorial dos Xukuru-Kariri me chamou a atenção: habitavam em seis aldeias – áreas não contínuas – resultantes do movimento de retomadas. Durante a pesquisa, já no Programa de Pós Graduação em História Social da UFBA, redefini meus objetivos, concentrando análise no processo de aquisição da primeira aldeia deste povo, no caso, a compra da Fazenda Canto. Esta foi a primeira aldeia Xukuru-Kariri no contexto republicado, depois de viverem oitenta anos sem qualquer proteção ou assistência estatal. Atualmente, os Xukuru-Kariri encontram-se distribuídos em nove aldeias, há uma renovação nas lideranças indígenas, e continuam reivindicando a demarcação do seu território tradicional. Minhas pesquisas para o doutorado se concentraram nos aldeamentos do Século XIX, o que exigiu mais trabalho de arquivo do que de campo. Talvez, por isso, tenha havido um maior distanciamento do movimento indígena em si, com acompanhamento presencial, participando das ações.

 


R.Q: Você estabeleceu contato/diálogo com grupos e populações que são tema de sua pesquisa durante o processo de desenvolvimento da mesma? Se sim, como foi?


AB – O meu contato com os Xukuru-Kariri, vem desde 2001. Minha dissertação é um estudo específico sobre seu processo de aldeamento. Na pesquisa, as visitas à área foram fundamentais para a construção do problema. Os relatos me permitiram construir um olhar mais qualitativo sobre a vivência do grupo, de forma que quando trabalhei com a documentação oficial, as evidências passaram a compor um quadro de hipóteses bem mapeadas.

 


R.Q: Tem conselhos, recomendações de textos e leituras em geral para pessoas que queiram iniciar pesquisas nesta área?


AB – A História Indígena é um campo de interesse recente por parte dos historiadores. No entanto, já reúne uma produção significativa de textos. Abriu-se um campo de possibilidades para abordar a temática, desde a História Cultural, social à História Ambiental. Outro ponto que deve ser considerado, é a lei 11.645/2008, que torna obrigatório a abordagem da temática indígenas nas escolas. Mesmo diante das dificuldades para a sua implantação, é necessário continuar reescrevendo a história dos povos originários, para desconstruir séculos de uma história “oficial” que retirou desses povos o seu protagonismo político no processo histórico. É grande a satisfação de saber que hoje os próprios indígenas têm escrito a sua história, ou melhor, produzido e publicado estudos nas mais diversas áreas, se apropriando das ferramentas acadêmicas para produção do conhecimento. Atualmente, tem destaque mundial as reflexões filosóficas propostas pelo indígena Ailton Krenak. Uma crítica contundente ao sistema capitalista, um convite para se repensar o mundo, desta vez a partir da cosmologia indígena. Penso ser um novo campo que se abre, um chamado a velhos e novos pesquisadores.
 

Leia também as edições anteriores:

Criado pela Secretaria de Comunicação da Federação do Movimento Estudantil de História

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