Concurso

A Revista Quitinete, da Federação do Movimento Estudantil de História - FEMEH, traz como tema de sua segunda edição "Educação e relações étnico-raciais". Pensando nisso, decidimos abrir um espaço para que possam participar desta edição além da submissão de trabalhos, sendo isso através deste edital para submissão de artes que sejam direcionadas a temática.

Saiba mais:

MULHERES: OPRESSÕES, LUTAS E CONQUISTAS

REPORTAGEM DA CAPA

Por Teresa Patrícia

 

 

Ser “Mulher”¹

Pensei em muitas formas de escrever esse texto, pois falar sobre mulher e falar de conquistas, lutas, opressões e me leva à reflexão de inúmeras situações em que o sexismo se apresenta como o xis da questão. Essas reflexões partem de casos cotidianos na vida de uma mulher, seja no trabalho, na universidade, em casa, nos relacionamentos afetivos e, principalmente, em imposições sobre o seu corpo. Os exemplos subscritos nesse texto partem de situações presentes na minha vida que me fazem refletir sobre o que é ser mulher, ou melhor, sobre o que é ser uma mulher negra. 

Certa vez, na preparação de um ato sobre o aniversário da Lei Maria da Penha, em agosto de 2018 na Universidade Federal do Pará, Campus Bragança, onde fiz minha graduação em História, um grupo de mulheres estavam reunidas para produções de cartazes com frases que chamavam atenção para os casos de feminicídios no Brasil, que representam uma taxa muita alta, por sinal. Essas mulheres estavam dispostas a serem ouvidas e a chamar atenção para o que é ser mulher dentro de uma sociedade que em pleno século XXI ainda tenta manter controle sobre os corpos femininos, introduzindo normas sobre seu modo de vestir, seu modo de se portar e tenta silenciar a todo custo as mulheres que lutam constantemente em cargos políticos para serem ouvidas e respeitadas.

Bem, essa manifestação surtiu efeito, pois foi transmitida em jornais estaduais, mas por outro lado as proporções de feminicídios ainda cresceram, ou seja, “entrou por um ouvido e saiu pelo outro”. Mas isso não deve fazer com que haja desistência nas nossas lutas. Porque, mesmo de maneira obsoleta, estamos sendo ouvidas por mulheres e por homens também, que antes entendiam o patriarcado como modo fundamental de viver. Como exemplo posso citar casos de algumas mulheres que descobriram um modo de viver independente de seus maridos e de homens que repensaram sobre suas atitudes paternas e dividem as funções de casa com sua esposa.

Pode ser estranho mencionar exemplos de “homens que repensaram suas atitudes” como um ganho para a luta feminista. Eu estranhei isso ao iniciar a leitura de bell hooks no livro O feminismo é para todo mundo” (2018), em que a autora diz que “a conscientização feminista para homens é tão essencial para o movimento revolucionário quanto para mulheres”. Mas logo refletir o quanto essa colocação é genial, e lembrei que Chimamanda Adichie também diz isso em Sejamos todos feministas (2014), ponderando que para chegar ao consenso de um mundo igualitário nas relações de gênero é preciso repensar e refazer o modo de criação das crianças para serem livres para crescer sem ter que se enquadrar nos padrões impostos pela sociedade patriarcal.

 

Esses padrões são refletidos nos corpos femininos, principalmente, através da maternidade. A mulher que escolher não ser mãe é julgada por não querer se tornar “uma mulher completa”, como se a função da mulher em sua vida fosse: nascer, casar, parir e cuidar dos filhos. Ao mesmo tempo, a mulher que se torna mãe é privada de uma série de coisas, inclusive estudos e espaços políticos, justificado pela frase “se queria tá aqui, não tinha parido” e/ou “Por quê abriu as pernas?”. Essas são frases constantemente dirigidas às mães que escolheram estudar depois de ter filho. Frases que circulam nas universidades e nas políticas que envolvem esse espaço. É preciso ainda muito diálogo e luta para superar as barreiras impostas pelo patriarcado dentro das universidades – espaço predominante da função masculina. Assim como os cargos políticos, que ainda são espaços onde grande maioria dos representantes são homens, e que o substantivo “presidente” ainda não incorpora um significado explicitamente feminino.

 

Mas afinal, o que essa sociedade quer de nós mulheres?

 

Creio que a resposta para essa indagação seja: querem que a mulher não tenha o poder de decidir sobre seu corpo, seus desejos e sobre sua vida. Entretanto, respiro aliviada ao saber que estamos aos poucos decidindo sobre o que queremos ser, que podemos atuar em espaços antes considerados somente de domínios masculinos – como o futebol, a política, a medicina – e que temos voz ativa, sim!

 

 Hoje temos mulheres ocupando cargos políticos, sendo senadoras, deputadas, vereadoras, empresárias, líderes de coletivos e movimentos estudantis, mulheres atuantes nas federações de estudantes (deixo meu salve para FEMEH), presidentas de centros acadêmicos e tantos outros espaços que podemos considerar uma vitória em meio à tantas opressões que enfrentamos cotidianamente.

 

Entretanto, preciso enfatizar que estou me referindo de modo bem geral ao termo “ser mulher”. Mas, e quando o problema não se estende somente ao sexismo, mas às questões relacionadas sobre raça e classe?

É nesse momento que relato de forma breve a minha trajetória acadêmica como mulher negra, tentando trazer uma reflexão do quanto as formas de opressões designadas às mulheres negras ganham uma proporção três vezes maior relacionadas às opressões sofridas por uma mulher branca. Ressalto que essa reflexão não consiste em fazer uma comparação de “quem sofre mais ou quem sofre menos”, mas de nos levar a pensar a importância de introjetar em nossos discursos feministas a noção de interseccionalidade dentro da prática de sororidade feminina, como pontuado por Bell Hooks (2018), em que “a sororidade feminina está fundamentada no comprometimento compartilhado de lutas, contra injustiça patriarcal, não importa a forma que a injustiça toma”.

Em meados de 2016 eu ainda não compreendia a importância do tal “feminismo negro”. Na verdade, ainda não compreendia a noção do que era o termo feminismo. No mesmo ano, durante as ocupações das universidades contra a PEC-55 – medida imposto no governo interino do presidente Michel Temer e que consistia nos cortes de gastos na área da educação e da saúde – pude presentear e me encontrar em um espaço de resistência onde ao almejos em prol de uma sociedade democrática e com condições de equidade de vida eram compartilhadas.

O primeiro passo foi aceitar a transição do meu cabelo alisado para o meu cabelo crespo, isso se deu após muitas leituras e trocas de experiências. E foram essas “leituras e trocas de experiências” que me proporcionaram pensar na necessidade de conhecer a relevância do feminismo negro. Minha participação em grupo de leituras como o “Leia Mulheres” fez eu ouvir às vozes de mulheres na literatura que por muitas vezes eram silenciadas. Pude ouvir a voz de mulheres incríveis como Djamila Ribeiro, Conceição Evaristo, Grada Kilomba, Tatiana Nascimento, entre outras, que denunciavam em sua escrita, em forma de prosa e poemas, as opressões sofridas pelas mulheres negras.

Ao ler, eu compartilhava do universo dessas mulheres nas vezes que tentava falar em público e ser silenciada ou por ter minha voz “reforçada” por mulheres brancas, homens negros e/ou homens brancos. Ou em questões de estéticas, em que o cabelo crespo volumoso e solto era visto como algo exótico, uma coisa de outro mundo. E até mesmo nas relações amorosas, das vezes que meu corpo era visto de modo sexualizado, ou das vezes que tive que suportar a solidão da mulher negra.

 

Isto mesmo, a mulher negra precisa ser forte duas (ou mais) vezes. Além disso, o termo “ser forte” consiste ainda nas situações maternais. A mulher negra tem que aguentar cruelmente a dor do parto porque permeia em seu “sangue” o termo forte. Esses são exemplos do racismo institucional e estrutural enfrentados pela mulher negra. No entanto, essa discussão precisa ser comentada de forma mais aprofundada.

 

Desse modo, observamos que ocorre uma distinção no alcance da igualdade entre feministas brancas e negras (Bell Hooks, 2018). Mas, trabalhando nossas reflexões acerca das noções de interseccionalidade – onde focalizamos os múltiplos sistemas de opressão, em particular, articulando raça, gênero e classe – e da sororidade feminina – sem as distinções de classe, gênero ou raça – podemos chegar em um mundo menos desigual para todos, todas e todes. E no mais, ainda há muito espaço para ser conquistado e muito do que se falar sobre a ser mulher. No qual ocorra a contemplação das diversas formas de identidade, práticas, saberes, as opressões e conquistas do que é ser mulher. Sigamos lutando como uma menina!

¹Meu nome é Maria Madalena dos Santos do Carmo, 24 anos, quilombola de Itamoari, paraense e amazônida.

Analise FEMEH

Apresentação
Por Teresa Patrícia  

A Quitinete é uma revista trimestral de acesso gratuito, livre e irrestrito. Direcionada aos acadêmicos, profissionais e todos aqueles que se interessam pelo meio histórico. Se trata de um projeto da Federação do Movimento Estudantil de História (FEMEH), entidade de representação dos estudantes da Licenciatura e Bacharelado, da Graduação e Pós-Graduação dos cursos de História de todo o país.
A FEMEH tem como intuito direcionar o Movimento Estudantil de História e organizá-lo de forma democrática e combativa. Desde o ENEH de 2019 a Federação vem buscando se reaproximar da sua base, os Centros e Diretórios Acadêmicos, sejam esses filiados ou não. Dessa forma, seu objetivo é entender as necessidades das entidades, ajudá-las a serem mais ativas e combativas para assim somar forças com o Movimento Estudantil de História.
Essa revista, por ser um exemplo de reaproximação entre a Federação e sua base, irá publicar trabalhos feitos pelos historiadores, sejam eles graduandos ou graduados. É uma forma de mostrarmos as produções daqueles que nos ajudam a construir a Federação e que estão engajados na nossa luta, dialogar sobre as adversidades das minorias e defender as suas pautas. Além de ser um espaço para divulgarmos e disseminarmos os trabalhos e projetos desenvolvidos pela FEMEH.
Cada edição terá um tema principal, que será escolhido por meio de votação através das redes sociais da Federação. A primeira edição cujo  tema é "Mulher: Opressões, Lutas e Conquistas" será o espaço onde nós daremos vez e voz para quem é constantemente silenciada dentro da sociedade patriarcal na qual estamos inseridos, mas também que vem a cada dia conquistando espaços e fazendo suas vozes serem ouvidas através de muitas lutas: as mulheres. Esperamos que nossos leitores apreciem o conteúdo da revista e nos ajudem a construir as próximas edições.

 


 

Por que Quitinete?
Por Teresa Patrícia  


A escolha do nome da nossa revista se deu através de uma seleção na qual as pessoas podiam preencher um formulário divulgado no Instagram da Federação do Movimento Estudantil de História – FEMEH. A ideia era que junto com o nome sugerido também se colocasse a justificativa do mesmo. Assim sendo, tivemos seis sugestões: História Hoje, Quitinete, Oficina de Clio, Luís Carlos Prestes, Iroko e Esperança Garcia. Nossa pesquisa de opinião teve 90 votos e, com 30% dos votos, a sugestão mais votada foi para que nossa revista se chamasse Quitinete. Quanto ao ranking das demais sugestões, Oficina do Clio teve 21,1% dos votos, Esperança Garcia 17,8%, História Hoje 11,1%, Revista Luís Carlos Prestes e Iroko receberam ambas 10% dos votos. 
O nome Quitinete foi sugerido por Natanael Silva, graduando em História pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI). A respeito da justificativa de sua sugestão ele afirmou: “Quitinete é uma pequena moradia com um ou dois cômodos e poucos móveis. A quantidade de moradores depende de onde o imóvel está situado na cidade: em uma zona nobre geralmente há quitinetes com um solteiro em busca da liberdade, uma emancipação das amarras das correntes familiares; na periferia, comporta uma família inteira. Quitinete é uma moradia menor, de baixo custo, muitas vezes passageira, as pessoas ficam até terminar seu curso superior ou até arrumar um “trampo” melhor. Essa revista é do Movimento Estudantil de História, construída por estudantes de História, logo pensar em um nome pra ela requer também pensar na estética dela, em como se encaixaria nos textos e na proposta da revista. Pensei em um nome original, como uma marca, mas que também fosse poético, que desse pra esse projeto um sentido único. Junto ao nome, imaginei algo focado no rearranjo dos móveis da quitinete, um improviso na arte de morar, também pensei que o nome era algo fácil de lembrar. Se nos atentarmos à poesia desse imóvel podemos ver nitidamente semelhanças com um historiador, alguém que aparentemente pode ser pequeno, mas com muito conteúdo e muita história.”

 


 

Capa

Nossa revista contará com uma série de relatos de mulheres sobre suas lutas e conquistas. A série visa aproximar as inúmeras realidades que as mulheres experimentam do debate para pluralizar as possibilidades de existir e resistir enquanto mulher. Os relatos buscam dar visibilidade às trajetórias de diferentes mulheres e inspirar quem está lendo.


 

Criado pela Secretaria de Comunicação da Federação do Movimento Estudantil de História

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